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Fundeadouro Romano – Olisipo (Praça D Luis I, Lisboa)

Fundeadouro Romano – Olisipo

As escavações em curso na Praça D. Luís I, em Lisboa, acabaram por revelar a existência de um fundeadouro romano usado entre os séculos I a.C. e V d.C., no qual foram encontradas meia centena de ânforas e peças de cerâmica, entre elas um exemplar que apresenta um grafito.

O Arqueólogo Alexandre Sarrazola, coordenador dos trabalhos, a cargo da empresa ERA-Arqueologia declarou ao Publico “Temos no mínimo meio milénio de história documentado neste fundeadouro”. Este local de ancoragem de embarcações da época romana encontrava-se sob a grade de maré (que ocupava uma área de 300 metros quadrados), o que, como sublinha Alexandre Sarrazola, explica que tenha ficado como que selado, resistindo ao maremoto de 1755 e à implantação do Aterro da Boavista no século XIX.

Foto 1 – Vista parcial de contexto romano coberto pelos lodos do Tejo. Autor: Era Arqueologia SA – Todos direitos reservados

Estes vestígios foram descobertos durante a construção de um parque de estacionamento subterrâneo, numa área que outrora ficaria a “70, 100 metros da linha da praia fluvial” e na qual, segundo a iconografia antiga, haveria “uma pequena baía, em frente à colina de Santa Catarina, que propiciaria as condições naturais para um fundeadouro”, sintetiza o arqueólogo.

Neste local de ancoragem foi ainda encontrada uma madeira, com cerca de nove metros de comprimento, que os técnicos não arriscam por enquanto dizer se teria sido parte de uma estrutura portuária ou de uma embarcação, além das já referidas dezenas de ânforas, cerâmicas utilitárias de uso corrente e cerâmicas finas, ou ainda elementos orgânicos como pinhas (que serviriam para tapar as ânforas) e sementes.

“São ânforas romanas, quase todas produzidas na região, provavelmente na margem sul”, diz Jorge Parreira, acrescentando que estes recipientes serviriam para transportar preparados de peixe produzidos em tanques existentes em áreas que hoje correspondem à Rua Augusta ou a Belém.

Além dessas “ânforas locais”, foram encontradas, sob a Praça D. Luís I, ao lado do Mercado da Ribeira, outras “quatro ou cinco que viriam de fora, do Norte de África, de Itália e do Sul de Espanha, possivelmente com vinho ou azeite”, continua o arqueólogo, “Este achado reveste-se de uma importância determinante do ponto de vista científico e da história do período romano, particularmente para Lisboa, mas também em sentido lato”, salienta Alexandre Sarrazola. O arqueólogo destaca que a presença neste local de materiais importados ao longo de cerca de 500 anos (como cerâmicas de Espanha e de Itália) e de outros destinados à exportação (os preparados de peixe armazenados em ânforas) “dá a dimensão social, económica e política da importância do papel de Olisipo num mundo de facto globalizado”.

Foto 2 – Ânfora e outros recipientes romanos. Autor: Era Arqueologia SA – Todos direitos reservados

O fundeadouro, como é designado no meio arqueológico, é um espaço à beira da costa, onde os navios ancoravam temporariamente para descargas, trânsito de passageiros e para concretizarem várias operações, como reparações. Esta zona, agora a 100 metros de distância da atual rua da Boavista, então zona de praia, constituía uma pequena baía onde os navios romanos fundeavam” e, no trânsito de cargas e passageiros, deixaram cair matérias ou até se libertaram delas.

Entre os achados, encontra-se as ânforas, os “contentores da época, nomeadamente, neste caso, para preparados de peixe” de que se conhecem fábricas de salga na atual baixa e zona de Belém. “As ânforas tinham, em média, a capacidade 45 litros, eram produzidas na Lusitânia, nomeadamente na margem sul do rio Tejo”, mas foi também encontrada uma ânfora de finais do século I antes de Cristo, “que transportaria, provavelmente, vinho de Itália”, referiu Jorge Parreira, arqueólogo da equipa.

Foto 3 – Grafito sobre fragmento de recipiente de cerâmica do período romano. Autor: Era Arqueologia SA – Todos direitos reservados/ Montagem Portugal Romano

Estes materiais que o lodo ajudou a preservar, permitem hoje determinar “uma dinâmica comercial, que dá já conta de Lisboa como uma placa giratória na economia do Império Romano, e já nos dá uma dimensão atlântica”.

Foram também encontrados artefactos de cerâmicas sigilatas, nomeadamente da baixela de consumo dos próprios navios, ou para consumo das elites locais que “não seriam tão abastadas quanto isso”, disse Sarrazola

Foto 4 – Vestígios muito abundantes e concentrados de contentores romanos, nomeadamente de ânforas. Autor: Era Arqueologia SA – Todos direitos reservados

 

No espaço escavado, foi encontrada “uma sucessão de estruturas arquitetónicas e portuárias que refletem, de uma forma muito rica, a História de Lisboa”.

O arqueólogo referenciou as diferentes estruturas encontradas, do século XIX para períodos mais recuados: “O famoso aterro da Boavista de 1855-1863, os alicerces da fundição do Arsenal Real, a estrutura portuária da Casa da Moeda, esta do século XVIII, a estrutura portuária do Forte de S. Paulo, do século XVII, e coevos desta época, uma outra pequena estrutura portuária e uma grade de maré ou rampa de estaleiro”.

A escala do Império Romano

O investigador Carlos Fabião, do Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa e professor associado da Faculdade de Letras, lembra que “é fundamental compreender o “micro-sítio” Praça D. Luís, articulá-lo, em escala mais ampla, com a cidade de Olisipo, perceber a sua interacção com o território da cidade, integrá-lo na dinâmica da província romana da Lusitânia, enquadrá-lo na escala maior que era o Império Romano”.

Questionado sobre a relevância dos vestígios agora revelados, Carlos Fabião considera-os “de grande importância” e “invulgares”, “mas não inesperados numa cidade marítima do Império Romano”. “Não temos qualquer dúvida de que, à semelhança do que acontece em outras cidades similares, toda a frente ribeirinha de Lisboa estaria (e estará) repleta de vestígios deste tipo. Afortunadamente, neste caso foi possível identificar estes vestígios e será possível estudá-los. Desgraçadamente, em muitos outros casos, vestígios análogos terão sido destruídos sem qualquer registo prévio, e assim continuará a acontecer, se não se estabelecer uma política sistemática de arqueologia preventiva nas antigas frentes ribeirinhas”, alerta o investigador especialista no período romano.

Segundo o investigador Carlos Fabião, destaca a importância deste achado e avisa que vestígios análogos já foram e continuarão a ser destruídos, enquanto não houver “uma política sistemática de arqueologia preventiva nas frentes ribeirinhas”. 

Texto adaptado e retirado das informações reproduzidas em:
- http://www.publico.pt/local-lisboa/jornal/meio-milenio-da-historia-da-cidade-de-olisipo-revelado-na-praca-d-luis-i-2612067
- http://www.dn.pt/inicio/ciencia/interior.aspx?content_id=3071719&page=-1
Vídeo RTP
- http://www.rtp.pt/noticias/index.php?article=630393&tm=4&layout=122&visual=61

 

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Raul Losada

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