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A mais expressiva marca do Império Romano na atual Beira Interior
Fundada nas margens do Pônsul, numa suave colina flanqueada por um dos seus meandros, a ciuitas Igaeditanorum assumiu-se como uma espécie de ponta de lança da administração imperial nos territórios que na atualidade integram a Beira Interior. Teremos de recuar ao séc. I a.C., provavelmente à década de 30 dessa centúria, para marcarmos o despontar deste lugar – perfeitamente camuflado na paisagem, sem a exposição impositiva do cerro de Monsanto, o qual se apresentaria como o seu pano de fundo.
Antes deste momento, e à luz do que atualmente se conhece, não podemos atestar o efetivo povoamento deste lugar específico. É certo que existe referência genérica ao achado em Idanha-a-Velha de alguns materiais habituais em contextos da Idade do Ferro (Almeida e Ferreira, 1964: 95-99, Est. I e II; Vilaça, 2005: 19, nota 5). Mas estes, para além de escassos, constituem materiais avulsos, desconhecendo-se o seu contexto exacto de achado. Também nas escavações que efetuámos (com o patrocínio da Câmara Municipal de Idanha-a-Nova) em 2007, 2008 (Carvalho, 2009) e 2009 na área do forum foram recolhidos alguns fragmentos cerâmicos cujas características de fabrico (pastas grosseiras, muito micáceas, e superfícies decoradas com estreitas bandas pintadas, a bege e a vermelho ocre) se distinguem claramente das habituais produções romanas, aproximando-se mais dos fabricos de “feição indígena”, vinculáveis ao mundo ibérico (Idem). Mas também estas cerâmicas, recolhidas já em contexto estratigráfico romano (tardo-republicano ou alto-imperial inicial), não provam por si só uma ocupação pré-romana do local. Nem sequer, por agora, poderá ser sustentada uma ocupação plenamente republicana deste lugar. Desde logo, não constituem prova para esta alegada ocupação os dois tesouros monetários referenciados para Idanha-a-Velha, datados até 100 a.C. (Hipólito, 1960-61: 70; Villaronga, 1980; Faria, 1991-1992: 121). Quando muito, estes tesouros poderão documentar a presença do exército romano, talvez então distribuído por uma larga frente de conquista, a qual cruzaria esta região no dealbar da primeira centúria a.C. É ainda pelo menos tentadora a hipótese de localizar Idanha-a-Velha no corredor de passagem dos exércitos que Júlio César comandou, a partir de 61 a.C., contra o Mons Herminius e o último reduto dos Lusitanos (Díon Cássio, XXXVII, 52-55), à semelhança do que – volvidos alguns anos – poderá ter ocorrido com a expedição militar dirigida pelo propretor da Ulterior, Q. Cássio Longino. Partindo dos acampamentos de Cáceres, as legiões romanas poderiam então ter percorrido um corredor natural, o mesmo que – poucas décadas depois – será seguido pela estrada imperial com paragem certa em Igaedis, capital da ciuitas Igaeditanorum. E neste cenário hipotético, em meados do séc. I a.C., afigura-se igualmente sedutor imaginar os primórdios da futura cidade dos Igaeditani como um lugar de estacionamento militar. Se assim fosse, a um acampamento militar teria sucedido – já sob a égide da Pax Augustana – um estabelecimento civil, corporizando assim outro modelo de ocupação territorial. Mera conjectura, porém, que não encontrou no registo arqueológico, até ao momento, qualquer elemento que a suporte.
Porta norte e pano de muralha (possivelmente do Baixo Império), parcialmente reconstruídas por uma recente intervenção. Foto de Pedro C. Carvalho
Seja como for, a fundação deste núcleo populacional terá ocorrido no ocaso do período tardo-republicano, numa data que – para esta região a norte do Tejo – poderemos considerar recuada. Mas antes mesmo de se constituir como cidade capital – momento associado a um processo de urbanização – poderia então ter-se estabelecido como uicus, sobretudo se este conceito romano for aqui entendido não como um “aglomerado populacional secundário”, mas sim como um núcleo de carácter oficial, resultante de uma decisão institucional, levada a cabo num momento muito inicial de ocupação e estruturação do território. Um lugar com as características deste, ou mesmo dos uici que conhecemos mais a norte, na Capinha (Fundão) e na Meimoa (Penamacor), fundados muito provavelmente poucos anos mais tarde (em plena época augustana), poderão nesta zona da Hispania corporizar o entendimento que Michel Tarpin (2002) faz de uicus, enquanto “instrumento de colonização” – um uicus seria essencialmente entendido como instrumento de controlo e apropriação de zonas conquistadas; a sua fundação seria resultado de uma decisão institucional, tomada no sentido da apropriação formal e duradoura de um território, i.e., da apropriação colonizadora de um espaço; constituiriam, em algumas regiões, importantes agentes do processo de romanização.
Igaedis, enquanto hipotético uicus, poderia então, nessa qualidade (transitória), corporizar o arranque de uma nova fase, marcada por um novo modelo de organização e exploração territorial. Poderia mesmo, à semelhança do que se passa noutras partes do Império (Idem: 257-259), ter ocupado o preciso lugar de um antigo castrum, após o abandono das tropas, embora – como antes referimos – não haja por agora nenhum testemunho consistente que corrobore essa presença ou estacionamento militar. Seja como for, Idanha seria então lugar ainda de poucas casas, dispostas talvez em torno de um edifício público ou de uma pequena área monumental que marcaria o carácter oficial desse estabelecimento. Ainda que habitada quase exclusivamente por indígenas, teria assim já bem patente a marca do poder imperial. Seria então o lugar escolhido pela administração romana para desempenhar um papel de destaque no quadro de um novo modelo de ocupação destes territórios. E será precisamente durante esta fase inaugural que o lugar de Idanha – regido por magistri indígenas – estreitará os laços que o uniam à sede provincial, Emerita Augusta (Mantas, 1988: 421-423; Étienne, 1992: 359-362), ao mesmo tempo que serão lançadas as bases que sustentarão a sua eleição como cidade capital de ciuitas. Em termos arqueológicos, porém, muito pouco se encontra ainda documentado desta fase inicial. Apenas conhecemos alguns contextos associados e restos de paredes singularmente construídas em terra (nesta arquitectura em terra documenta-se sobretudo a taipa, mas surge também o adobe), as quais pertencem a um edifício (aparentemente de consideráveis dimensões) que será expropriado e demolido aquando da construção do forum (Carvalho, 2009).
Torre de menagem (séc. XIII) erguida sobre o podium do templo do forum romano. Foto de Pedro C. Carvalho
A época de Augusto será absolutamente decisiva para a organização romana destes territórios. A aceleração histórica pautará estes anos em torno da mudança de Era. Também aqui o poder do Imperium se imporá de forma notória e a todos os níveis. É a inevitabilidade da mudança que então distintamente se afirma. E esta mudança, sobretudo a partir deste novo arco de tempo, ter-se-á começado a processar naturalmente, beneficiando de certa forma de uma adesão ou então de uma “indiferença activa” – “activa” por se revelar colaboradora – por parte da população indígena. Será assim esta população que também corporizará o processo de mudança e que povoará os primeiros núcleos urbanos, como Igaedis, mas sem que veja totalmente diluída a sua identidade, i.e., sem que perca alguns dos elos mais genuínos que a ligaria ao passado, ao mundo dos seus ascendentes.
Será sob este pano de fundo plenamente augustano, e já nos primeiros anos da nova Era, que a Ciuitas Igaeditanorum se constituirá verdadeiramente como tal. Por um lado, delimitou-se o seu vasto territorium com a colocação no terreno de vários termini augustales – dos quais se conhecem, para norte, os de Peroviseu (Fundão) e de Salvador (Penamacor), datados entre 4 e 6 d.C. Por outro, ter-se-á monumentalizado a sua capital – processo que terá implicado a construção do forum dos Igaeditani, não precisamente no centro mas num dos pontos mais elevados da área urbana. Durante as escavações que efetuámos neste lugar em 2007 e 2008, os materiais datáveis recolhidos e estreitamente relacionados com a construção do forum, sugeriram a sua inscrição precisa nos primeiros anos do séc. I d.C., sendo muito provavelmente contemporâneo da delimitação do territorium desta ciuitas peregrina (Carvalho, 2009).
Paredes em taipa e adobe de um edifício demolido aquando da construção do forum. Foto de Pedro C. Carvalho
Assim sendo, cidade e território, enquanto componentes fundamentais de uma ciuitas (res publica, territorium e populus), serão resultado de um mesmo programa, i.e., terão sido concebidos e concretizados em simultâneo. Desta forma, os anos 4 a 6 d.C. marcarão um momento decisivo no processo de plena integração da Ciuitas Igaeditanorum no quadro da organização política do Império[1]. Tal como serão também tempos decisivos para outros territórios mais setentrionais da Lusitania, como é sugerido por alguns termini (datados de 5 a 6 d.C.) encontrados tanto mais a norte, noutra zona das Beiras, como para nordeste, na área de Salamanca (Le Roux, 1994: 48-49).
A partir deste momento, e ao longo de todo o séc. I d.C., a Ciuitas Igaeditanorum terá fortalecido o seu papel enquanto principal centro administrativo de um vasto territorium que se estendia desde o Tejo às serras da Gardunha e da Malcata. Mas, desde logo, terá também prosperado pelo facto do seu territorium ser particularmente favorecido em recursos mineiros, sobretudo de natureza aurífera (Sánchez-Palencia y Pérez García, 2005: 267-307; Carvalho, 2007: 102-103 e 350-353). Factores geo-estratégicos e económicos terão assim convergido no sentido de a promover a principal bastião do Império na actual região da Beira Interior. Projecção que a guindaria – durante a dinastia dos Flávios – a um estatuto municipal sustentado por uma carta constitucional própria (Ortiz de Urbina, 2000: 150-151, 174 e 243). A atribuição do título de municipium latinum não deixaria de constituir um reconhecimento do papel de relevo que desempenhava ao serviço do Império, deixando assim para trás o estatuto de oppidum stipendiarium – estatuto sob o qual continuariam a ser regidas muitas outras ciuitates do norte interior da Lusitania.
A notoriedade e hegemonia regional da Civitas Igaeditanorum perdurará inclusivamente no tempo, culminando em meados do séc. VI com a criação da grande diocese suévica da Egitânia (logo depois sede episcopal visigótica) e, mais tarde, com a formação da extensa kura de Laydãniyya ou Antaniya. Porém, a tranferência da sede episcopal egitaniense para a cidade da Guarda, em 1202, porá oficialmente termo a esta centralidade.
Bibliografia
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