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Uma villae romana no Rossio da Pederneira? (Nazaré)

Por Carlos Fidalgo

A presença romana na periferia da Laguna da Pederneira encontra-se atestada pela estação arqueológica de Parreitas1 e pelos trabalhos de arqueologia levados a cabo no local de São Gião por Eduíno Borges Garcia2 e, mais recentemente, pelo professor Luís Fontes3. Toda a restante informação advém de achados fortuitos, que não tiveram origem em trabalhos de arqueologia, e de alguns registos bibliográficos.

Este facto acaba por condicionar qualquer abordagem sobre a caracterização da ocupação, durante o período romano, na periferia da extinta laguna, tornando – a, desta forma, mais conjectural do que factual.

É neste âmbito que se considera pertinente abordar, ainda que de uma forma conjectural mas sustentada, o Rossio da Pederneira e a possível ocupação durante a presença romana nesta zona.

Localizado a sudeste da localidade da Pederneira, Freguesia e Concelho da Nazaré, é mencionado por vários investigadores como tendo sido uma villae romana.

Manuel Vieira Natividade refere que, ordenando os lugares onde descobrimos vestígios romanos e os que nos foram indicados por bibliografia estranha, verificamos a sua valiosa quantidade. E é assim que registamos: na Pederneira, mosaicos, moedas, vasos de barro e de mármore.4

João Pedro Bernardes refere também sobre o local acima mencionado que, na verdade, se as villae, como S. Gião, já fora do nosso território5,ou do Rossio da Pederneira (…), ambas nas margens da antiga lagoa da Pederneira, estão implantadas em solos sem qualquer capacidade agrícola, só poderão radicar as suas actividades económicas na exploração dos recursos marinhos. 5 A villa do Rossio da Pederneira, pelo rico espólio que apresenta, poderá ter tido funções de villeggiatura. Porém, pouco se sabe desta estação e nem mesmo lográmos identificar a sua exacta localização. 6

A villa primitivamente estendia-se muito para o sul, e a egreja de então dedicada a Santo André, ficava retirada do circuito das actuaes habitações no local chamado modernamente Rocio.7

Vista de Parreitas desde o Rossio da Pederneira. (Foto: Carlos Fidalgo)

(1) – BARBOSA. (2008)
(2) – GARCIA. ALMEIDA. (1966:339 a 350)
(3) – FONTES. MACHADO. (2010)
(4) – NATIVIDADE. (1960:100)
(5) – O Rossio da Pederneira encontrava-se localizado no alto da Serra da Pederneira, junto à actual localidade da Pederneira. A sua vertente piscatória, na época romana, não deveria ser muito activa, permitindo-nos colocar em causa tal actividade, pela distância que existe do local, até à extinta lagoa da Pederneira, considerando-se para o Rossio da Pederneira, a confirmar-se a existência de uma villae romana, um papel mais defensivo do que económico. Contudo, considera-se que a actividade agrícola deveria existir nos terrenos localizados a Nascente, Norte e Sul. A poente existiria, assim como existe, a arriba que dá para a actual praia da Nazaré que permitia a visualização de toda a costa desde o promontório da Nazaré até São Martinho do Porto, antiga entrada da lagoa de Alfeizerão.
(6) – BERNARDES. (2007:83)
(7) – COSTA (1943:1213).

As dúvidas sobre a localização do Rossio da Pederneira parecem dissipar-se à medida que vamos cruzando as fontes bibliográficas com as indicações orais e as visitas ao campo.

Sobre a localização do antigo Rossio da Pederneira, Bernardes refere que o mesmo fica num planalto e vertente virada a nascente formado por dunas e areias de dunas. (…) Solos arenosos, de fraca aptidão agrícola, ocupados por casas e hortas. 8

Nas várias visitas ao local pode verificar-se que o terreno possui uma suave inclinação para nascente e uma zona com uma cota mais constante a poente. Trata-se de um terreno onde existe ou persiste uma actividade agrícola de pouca relevância para o tecido económico da Pederneira, contudo, proliferam os pequenos talhões onde em família, e para a família, se pratica a agricultura.

Embora a descrição do espaço por parte de João Pedro Bernardes se encontre de acordo com o existente no espaço físico hoje conhecido por Rossio da Pederneira, deixa de coincidir com o mesmo quando o autor refere que as villae de Martim Gil e Nossa Senhora das Necessidades (…) estariam em relação directa com o Lis, ao passo que as do Rossio da Pederneira, Mina e Póvoa de Cós se situariam nas margens da antiga lagoa da Pederneira. 9

Não nos parece que o Rossio da Pederneira, durante a presença romana, alguma vez tenha estado junto às margens da extinta lagoa, uma vez que o mesmo se encontra à cota 85 acima do nível médio do mar e a mais de 2 kms a Norte da antiga entrada na lagoa.

Defende-se, assim, a existência de um povoado junto à lagoa mas numa época mais tardia que a romana.

Esta villa é uma das mais antigas da Extremadura, como nos afirmam, sem receio de contestação fundada, notáveis escriptores: d’entre estes o illustre antistite D. Frei Fortunato de S. Boaventura, cujo espírito investigador e minucioso nos assegura com razões sobejas a sua antiguidade, a ponto de não estar ainda averiguada a data da sua fundação, com quanto alguns auctores a remontem ao século IX. 10

Para esta problemática, contribui também a tentativa de localização do local do Rossio da Pederneira a menção a uma igreja dedicada a São Pedro da Pederneira que, segundo os registos documentais, é uma das que se gaba de ter mais remota antiguidade, pois afirmam alguns antiquários que já em 1195 ela tinha igreja paroquial e já em 1224 funcionava, com beneficiados, todos pertencentes, até 1834, ao padroado do rico Mosteiro de Alcobaça. 11

Ortofotomapa: Possível limite do local conhecido como “Rossio da Pederneira”. (A) – Zona onde, segundo palavras do agricultor, foram encontrados muitos objectos de cerâmica antiga, entretanto desaparecidos.

(8) – BERNARDES. (2007:181)
(9) – BERNARDES. (2007:84)
(10) – COSTA. (1906:194)
(11) – COELHO (1924:09).

Como sabemos, a laguna situava-se a sul da Pederneira, na base sul da encosta do mesmo nome. As únicas casas que encontrámos nesse percurso entre a várzea e o local do Rossio da Pederneira foram quatro pequenas casas em ruínas que, no nosso entender, possuem uma localização que deverá estar ligada à migração que a população da Pederneira encetou após o assoreamento da lagoa, séculos XIII a XVI.

Nesse mesmo percurso não se vislumbram quaisquer terrenos com actividade agrícola, apenas sistemas dunares pejados de pinheiro, eucalipto e variado tipo de vegetação infestante.

Nesse sentido, defende-se a localização do Rossio da Pederneira nesse local, pelas razões evocadas anteriormente.

Os achados arqueológicos levam a supor a existência de um local onde a presença romana se poderá ter feito sentir, contudo a aferição da sua real existência apenas poderá/deverá acontecer no âmbito de alguma operação urbanística prevista para aquela zona e com o, indispensável e previsto por lei, trabalho de arqueologia preventiva.

Apesar da suspeita da existência de uma estação romana naquele local, cremos que o topónimo “Rossio da Pederneira”, mais recente, deverá ter aparecido após a ocupação daquele espaço numa fase de transição entre o primitivo aglomerado urbano que deveria situar-se junto à lagoa e o actual.

Também não é de descurar que esse mesmo local, Rossio da Pederneira, tenha sido erigido, total ou parcialmente, sobre possíveis estruturas pré-existentes, neste caso romanas ou mesmo anteriores uma vez que o local, elevado, acaba por agregar todas as premissas para o estabelecimento de povoados em épocas anteriores ao período romano.

Não caberá neste pequeno artigo fazer qualquer tipo de conjectura, mas analisar os factos que se nos deparam e sustentar as nossas opiniões com factos concretos.

Os factos concretos são os achados arqueológicos provenientes do Rossio da Pederneira que se encontram depositados no Museu Dr. Joaquim Manso.

O tempo que terá durado essa ocupação e a sua cronologia nos tempos históricos são factores a investigar.

O Rossio da Pederneira, a confirmar-se a sua ocupação romana, poderá ter concorrido com Parreitas, devido à altitude a que se encontravam, para uma função estratégica de defesa na entrada da laguna. A partir da Pederneira se controlaria todo o movimento ao largo da costa e de Parreitas deveria controlar-se o movimento no interior da lagoa assim como toda a área terrestre a Norte, Nascente e Sul da sua implantação.

O facto é que este local contribuiu com uma maior quantidade de achados arqueológicos do período romano do que São Gião.

Contudo, e apesar do que ficou exposto, a ocupação romana na Pederneira continuará vinculada a relatos e alguns vestígios da época romana até se dar a conhecer através de alguma estrutura que se encontre no subsolo dos terrenos que compõem, actualmente, o lugar do Rossio da Pederneira.

Museu Dr. Joaquim Manso

 

Categoria: Escultura. 
Denominação: Máscara – aplique.
Data da Aquisição: 05/03/1980
Aquisição a: Tito Lívio Calixto.
Número de Inventário: MEAJM – 194 Arq.
Dimensões: Altura: 7.00 cms; Largura: 4.00cms; Altura da face: 5.00cms.
Época: Romano.                                                                  
Datação: Não estudada.
Função/Uso: Máscara de adorno?
 

Máscara de adorno? Proveniência: Rossio da Pederneira – Museu Dr. Joaquim Manso Nazaré (Foto: Carlos Fidalgo)

 
Proveniência: Rossio da Pederneira.
Descrição da peça: «Máscara de barro coado bem cozido, feita à mão, representando uma anciã. Esta máscara – aplique, é uma miniatura das máscaras de teatro trágico da Antiguidade. Servia como aplique porque tem no topo posterior do cabelo um furo de suspender. Teria sido pintada de branco. Os olhos são dois furos.» [1]
Estado de Conservação: Razoável.
Historial: Foi achado nas terras do Rossio da Pederneira, em trabalhos de lavoura, em 1941, juntamente com vasilhame de cerâmica que foi completamente destruído. [1]
Encontram-se actualmente na exposição permanente de Arqueologia no referido museu e identificada com o Nº25 da mesma exposição.
 
* Artigo da reproduzido na Revista “Portugal Romano.com”, edição de nº1 Abril de 2012 - http://www.portugalromano.com/revista/

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Raul Losada

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