Por Sónia Bombico
O início da nossa história remonta à primavera de 2004, quando Luís Santos Jorge, caçador submarino, avistou alguns fragmentos cerâmicos por entre o fundo rochoso dos Cortiçais (costa sul de Peniche). No final do mesmo ano, foram realizadas missões subaquáticas de verificação do local sob a responsabilidade do arqueólogo Jean-Yves Blot, convidado pela DANS (Divisão de Arqueologia Náutica e Subaquática) e com a participação de alguns mergulhadores do GEPS (Grupo de Estudos e Pesquisas Subaquáticas), do Clube Naval de Peniche e do próprio achador. O material cerâmico recolhido nessas primeiras missões foi caracterizado por A. M. Dias Diogo como fragmentos de ânforas romanas de tipo Haltern 70 provenientes da província romana da Bética (actual Andaluzia).
O apoio da Câmara Municipal de Peniche, a colaboração do GEPS, de alunos de Arqueologia da Universidade de Coimbra, de Mário Jorge Almeida (Museu Nacional de Arqueologia) e de um conjunto de mergulhadores entusiastas da arqueologia subaquática permitiu a progressão dos trabalhos por mais dois anos.
Desta forma, o sítio foi alvo de duas campanhas subaquáticas de sondagem e escavação, realizadas no Verão de 2005 e 2006, respectivamente. Na sequência dos trabalhos submarinos foram, ainda, realizadas outras duas campanhas de tratamento de material, realizadas no período invernal.
Para além das ânforas vinárias foram identificados fragmentos de cerâmica de paredes finas e terra sigillata itálica, enquadrável no período cronológico entre 15 a.C. e 15 d.C.
Mas o que faria uma embarcação romana, com uma carga maioritária de vinho da Bética, nas águas ao largo de Peniche?
A localização do naufrágio dos Cortiçais é evidência clara da utilização de uma rota atlântica de circum-navegação da Península Ibérica com destino às províncias setentrionais da Britannia e ao limes germânico, abastecedora das populações romanizadas e dos exércitos aí acantonados.
O sítio surge em perfeita relação com um conjunto de outros vestígios já documentados para a região, entre os quais os fornos romanos do Murraçal da Ajuda, produtores de ânforas, e os vestígios arqueológicos da ocupação romana da ilha Berlenga e utilização do seu fundeadouro.
A recuperação de materiais romanas em alguns contextos do Tejo, do Arade e na costa algarvia, tem permitido caracterizá-los como presumíveis locais de naufrágio. No entanto, as sondagens arqueológicas efectuadas no sítio dos Cortiçais transformaram-no no primeiro caso confirmado de um naufrágio de época romana em águas portuguesas.
Enquanto aguardamos que novas campanhas tenham lugar, o mar de Peniche continuará a guardar os segredos de um dia de infortúnio para os marinheiros romanos.
* Artigo reproduzido da Revista “Portugal Romano.com”, edição de nº1 Abril de 2012 – http://www.portugalromano.com/revista/






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