Por Carlos Fidalgo
Justificar a presença romana na área da laguna da Pederneira obriga à conjugação de dois factores: o enquadramento da ocupação romana na Estremadura centro/litoral e os vestígios arqueológicos da época romana encontrados nesta mesma zona.
A laguna da Pederneira encontrava-se, parcialmente, dentro do limite da Civitas de Collippo, constituindo o seu limite a sul.
Encontrava-se também dentro da Civitas de Eburobrittium, limitando-a a Norte. Era, portanto, como que uma fronteira entre as duas Civitas.
A laguna da Pederneira separaria, a sul, Collippo de Eburobrittium. Partindo da Ponte das Barcas, na actual foz do rio Alcoa, seguiria pelo meio da laguna (a parte meridiana pen venam de Alcobacia) direito à Fervença e, daí, aquele rio até Alcobaça. BERNARDES (2007:27).
Também Jorge Alarcão apresenta uma delimitação segundo a qual a Civitas de Eburobrittium, na fachada atlântica, ocupava um pequeno território entre o mar e as serras de Montejunto e dos Candeeiros, cujo festo provavelmente marcava o seu limite oriental. A sul, a ribeira de Alcabrichel servia, talvez, de fronteira com a Civitas de Olisipo. Quanto ao limite setentrional, é mais difícil de definir, mas poderá ter corrido por Évora de Alcobaça e S. Gião (Nazaré). ALARCÃO (1990:381).
Anos mais tarde, referindo-se aos limites da Civitas de Collipo, defende que sem que possamos concretizar a fronteira, necessariamente artificial, pois não há acidente orográfico ou hidrográfico significativo. Talvez um prolongamento da Serra dos Candeeiros, que vem morrer no sítio da Nazaré, pudesse ter servido de limite. ALARCÃO (1995:47).
António Figueiredo, sobre os limites e as interacções das lagunas da Pederneira e Alfeizerão com as Civitas de Collippo e Eburobrittium, defende que a divisão entre os territórios de Collippo e Eburobrittium deveria situar-se na laguna da Pederneira, sendo esta maioritariamente pertencente a Collippo. De facto, as eventuais estruturas portuárias aí existentes seriam funcionalmente mais úteis a esta Civitas do que à sua vizinha a sul. FIGUEIREDO (2007:115).
Não nos parece que as eventuais “estruturas portuárias” existentes na laguna da Pederneira, conforme refere António Figueiredo, tivessem mais utilidade para Collippo do que para Eburobrittium, ambas distantes e servidas por planos de água marítima e fluviais, sabendo que para Collippo deveriam concorrer o rio Lis e Lena e para Eburobrittium a laguna de Alfeizerão.
Achamos, sem prejuízo de eventuais comunicações terrestres com essas Civitas, que a laguna da Pederneira deverá ter servido sobretudo os povoados que a marginavam, como parece ser de fácil aceitação perante os factos analisados.
Ainda assim a localização geográfica da laguna da Pederneira, entre Collippo e Eburobrittium, reforça a sua importância estratégica no âmbito da presença romana nesta zona da Estremadura.
Aceitando que a laguna de Alfeizerão terá tido uma importância fulcral para Eburobrittium por razões de proximidade, deveremos também concordar que a laguna da Pederneira tenha desempenhado o mesmo papel em relação a Parreitas, Cós, Mina, Águas Belas, Pederneira e até São Gião. Locais que, à excepção de Parreitas, ainda necessitam de ser objecto de um trabalho de prospecção arqueológica para enquadrar os vestígios da época romana que forneceram.
Interessa, nesta fase, relevar que as periferias das lagunas referidas já tinham sido, desde tempos mais remotos, locais de congregação de outros povos e que pelos mesmos motivos estratégicos, em termos económicos e defensivos, na época romana os povoados se vão fixando nas periferias destes dois mares interiores.
A laguna da Pederneira parece, desta forma, afirmar-se como a porta de entrada privilegiada por via marítima para a região de Collippo, integrando os circuitos de comercialização da época. (…) Poderemos, assim, inferir que um dos acessos privilegiados ao oppidum de Collippo a partir do mar se faria entrando na extensa enseada que constituiria a laguna da Pederneira. BERNARDES (2007:60).
Assumindo esta possibilidade, teremos de levar em consideração a distância geográfica entre a laguna da Pederneira e São Sebastião do Freixo (Collippo), cerca de 25kms em linha recta, o que nos leva a propor uma outra solução.
Parece-nos ter maior sustentação, à luz dos factos analisados, que Collippo teria no rio Lis e Lena a sua principal porta de entrada por via marítima uma vez que, à época romana, estes se deveriam estender mais para montante. (vide Mapa1)
Por seu lado, a laguna da Pederneira deveria concorrer mais para os povoados que a circundavam, como já foi referido. Isto não significa que a laguna da Pederneira não tivesse qualquer ligação comercial/estratégica com Collippo e Eburobrittium mas, seguramente, deverá ter sido nas estações da Mina, Rossio da Pederneira, Póvoa de Cós, Parreitas, entre outras, que a existência da laguna da Pederneira se terá repercutido com maior expressão.
Verificamos, assim, que se poderá equacionar para os povoados de Collippo, Parreitas e Eburobrittium, um acesso marítimo “exclusivo” que deveria ter ramificações fluviais e viárias entre os mesmos e com outras cidades ou villaes existentes na Estremadura Central.
Este facto parece-nos ser sustentado por Pedro Bernardes, quando refere que as villae de Collippo não manifestam qualquer atracção pela cidade – capital. Entre as dezoito explorações que considerámos deste tipo, só as da Torre e Vale do Forno se situam a menos de 5 Km da sede da civitas. A primeira destas situa-se a2,8 Km da cidade, e a segunda quase naquele limite (4,8Km).
Situadas num raio entre os 5 e 10 Kmtemos sete villae, quatro entre os 10 e15 Km e mais cinco fora do raio dos15 Km. (…)
O maior afastamento, em relação ao principal centro de poder, de pelo menos três destas cinco villae poderá ser explicado pela existência de um núcleo de atracção que não a cidade – capital – trata-se da laguna da Pederneira. Tal facto é particularmente nítido para as estações da Mina e do Rossio da Pederneira cujas distâncias à cidade são, respectivamente, de 22,3 e 24,5 Km, valores muito além dos das villae de Póvoa de Cós e Largo de S. João, cujo afastamento rondará os 16,5 Km. Aquelas duas villae (Mina e Rossio da Pederneira) constituem os casos verdadeiramente anómalos, tal como a Quinta de São Lourenço, que já se deverá situar no território de Conímbriga. BERNARDES (2007:86).
Para Vasco Gil Mantas as villae estabelecidas na costa possuíam uma importante vantagem sobre as que se situavam no interior, a menos que estas ficassem perto de algum rio navegável, (como é o caso do rio Lis e do Lena) que era a possibilidade de transportar grandes quantidades de produtos, quer agrícolas, quer piscícolas, por um preço muito reduzido, até aos locais de consumo, cidades marítimas ou fluviais, ou centros portuários que funcionavam como centros de distribuição ou de reunião de cargas para exportação. MANTAS (1990:148).
Delimitação, provável, do plano de água dos rios Lis e Lena na época romana. Composição (Adriano Monteiro, 1998.)
A laguna da Pederneira deveria servir como uma zona intermédia desta rota comercial marítima. Os vestígios arqueológicos encontrados e as referências bibliográficas, exceptuando a estação Arqueológica de Parreitas, ainda não nos forneceram qualquer indicação de que na periferia da laguna da Pederneira se tenha instalado algum povoado com a importância de Collippo e de Eburobrittium.
Em jeito de conclusão, não são de desprezar os achados arqueológicos1, referidos em bibliografia vária, na periferia desta laguna. Locais como Póvoa de Cós, Mina, Águas Belas, Bico do Frei António, Pederneira, entre outros, poderão remeter-nos para uma tipologia de ocupação, durante o período romano, bastante significativa mas que provavelmente nunca terá conseguido congregar a dimensão das duas estações referidas, Collippo e Eburobrittium.
1 – Para uma percepção dos achados da época romana na periferia da Laguna da Pederneira durante o período Romano consulte-se; BERNARDES. (2007:179 a197)
Bibliografia
ALARCÃO, Jorge de, (1990) – O Domínio Romano. Portugal das Origens à Romanização. Nova História de Portugal, Vol. I., Lisboa.
ALARCÃO, Jorge de, (1995) – O Domínio Romano em Portugal, Europa América, 3ª Edição, Mem – Martins.
BERNARDES, João Pedro, (2007) – A Ocupação Romana na Região de Leiria, Faro, Centro de Estudos de Património, Departamento de história, Arqueologia e Património, Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade do Algarve.
FIGUEIREDO, António, (2007) – Da Idade do ferro à romanização na Alta Estremadura – Primeira abordagem, Barlia – Revista Cientifica sobre Ambiente e Desenvolvimento, Nº3/4, Leiria, Edição Agência Portuguesa do Ambiente, pp.109 a 126.
MANTAS, Vasco Gil, (1990) – As villae marítimas e o problema do povoamento do litoral português na época romana, in Économie et territoire en Lusitanie romaine – Actes et travaux reunis et presentes par Jean – Gerard Gorges et Fº Germán Rodriguez Martín, Collection de la Casa de Velázquez, Volume nº 65, pp. 135 – 156.
Mapas
1: BERNARDES, João Pedro, (2007) – A Ocupação Romana na Região de Leiria, Centro de Estudos de Património, Departamento de História, Arqueologia e Património, Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade do Algarve.
2: Composição do Eng.º Adriano Monteiro, (1998)



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