Acabada de regressar do Alentejo, pensei:
Évora, a cidade Património da Humanidade de que reza a história que foi conquistada aos Árabes em 1165 por Geraldo Geraldes, o Sem Pavor, que lhe deu o brasão do claustro da Sé, com as duas cabeças dos mouros decepadas, e que ofereceu o nome à praça mais emblemática da cidade, é efectivamente bela.
Como sempre, hoje reencontrei-a bela, mas quase intocável na sua beleza, tão e tanto, que lembra algumas mulheres lindíssimas que não se podem macular.
No subsolo de Évora pontua Roma e ainda há resíduos da altivez do seu Império, que, ali, ao contrário de outros lugares, não parece ter encontrado o confronto de anteriores povoadores, pois, apesar a origem do topónimo parecer indiciar uma ocupação anterior, ainda não foi confirmada arqueologicamente.
O templo, rodeado de um espelho romano ao tempo de Latinos e dedicado muito possivelmente ao culto do Imperador, foi açougue também, até que o século XX decidiu trazer à luz o que dele restava, limpando as posteriores construções.
Na sua superfície ainda se sente também que ali esteve sediada a Inquisição, os conventos, enormes, impositivos que relembram a luxúria da corte os alimentos reais: O Convento do Espinheiro, S. Bento de Castris e outros tantos mais.
O grandioso Convento do Espinheiro, cuja origem data do século XV, deve, ao que consta, o seu nome a uma lenda que narra a aparição da Virgem Maria sobre um espinheiro, por volta do ano 1400.
(Imagem da Capela de André de Resende obtida no site do IPPAR/IGESPAR)
Ao que é dado saber, a capela tumular de Garcia de Resende é fundada em 1520 e a sua construção iniciada no ano seguinte (ESPANCA, 1966, p. 307), em terrenos pertencentes ao mosteiro hieronimita de Santa Maria do Espinheiro. Deve-se a escolha da localização à importância que D. Manuel atribuiu à ordem jerónima, ao ponto de grandes famílias nobres se fizessem enterrar em conventos sob o seu controlo.
A este ideal, de natureza eremítica e contemplativa, Garcia de Resende faz-se equivaler, através da construção de uma capelinha no ermo, ou seja, afastada da igreja conventual, e com o orago escolhido, Santa Maria do Egipto, imagem de penitente de raríssima invocação em Portugal, à aderência a um modelo ascético, típica da devoção quinhentista, tornando-se igualmente num ícon da cultura do humanista Garcia de Resende que lhe oferece o nome (CUSTÓDIO, 1989, pp. 114-115).
A construção, de volumes escalonados, é composta por nártex vazado por três arcos redondos, um em cada muro, e pelo arco igualmente de volta perfeita que abre para a nave de pequenas dimensões, com ábside ainda mais estreita e rebaixada, de planta rectangular, tida como uma minúscula obra-prima do manuelino, de traça atribuída a Martim Lourenço (RAMALHO, 1998). No pavimento do nártex está a campa de Jorge de Resende, irmão de Garcia de Resende, originalmente na nave, mas depois trasladada para este espaço exterior. Na nave, de dois tramos de abóbada ogival, permanece a campa de Garcia de Resende, aqui recolocada no século XX, uma vez que a pedra tumular, de lavor renascentista, fora vendida após a extinção das Ordens Religiosas. Na mesma altura se levaram da capela as ossadas de Resende, hoje igualmente recuperadas. O pavimento da nave e da ábside é formado por um forro de azulejos hispânicos do início de quinhentos, e as abóbadas nervuradas são rematadas por bocetes vegetalistas, assentando em mísulas de temática idêntica.
O particular interesse desta capelinha reside justamente nas suas reduzidas dimensões, bem como na utilização de um estilo manuelino-mudéjar tipicamente alentejano, no que respeita aos volumes escalonados e ameados, também sentido na Ermida de São Brás.
A miniaturização da capela, de volumes cúbicos, e a utilização de rebocos de alvenaria e revestimentos azulejares aproxima-a, de acordo com alguns autores, dos oratórios moçárabes (CUSTÓDIO, 1989, pp. 117-119), sendo esta particular sensibilidade mudéjar aquilo que mais se destingue nesta declinação do estilo manuelino. (informação adaptada do site do IPPAR/IGESPAR)
Mas também aqui em Évora vivem alguns seres cuja arqueologia do saber tornou distantes e frios: numa verdade “total”; numa palavra firme, de que, nos corredores do Palácio da Inquisição, ainda ressoa o eco.
E nos seus arredores, sobrevive também, em clausura total, o silêncio de Cartuchos, reduto dos dias sem fim. Vinhos de qualidade narram as histórias caladas desses Homens que sabem guardar para si as palavras.
Não obstante, no meio de Évora, em pleno coração desta extraordinária cidade, vivem também seres, a quem os céus bafejou com calor e sentimentos: esses, sim, é sempre muito bom reencontrar.
A eles, o meu até sempre. Até já.
Hoje o circuito que proponho para conhecer Évora é relativamente pequeno.
Em primeiro lugar, visitar a Sé. Construída com a edificação da nacionalidade, com transformações um século depois, ao reinado de D. Afonso III, deve ter, provavelmente, no seu subsolo uma Igreja Visigótica e uma Mesquita.
A edificação espelha o gosto da época, românica, como se fora uma fortaleza medieval, e já gótica, pois a demora das obras a fizeram adaptar às novas linguagens arquitectónicas.
Dos seus construtores ficaram marcas ou siglas inscritas na pedra.

Aproveite também para conhecer o Palácio de Vimioso, onde funciona o Departamento de História da Universidade de Évora, relembrar as fachadas da Casa do Inquisidor, do Palácio da Inquisição, e rever aquele extraordinário Templo Romano dedicado ao culto imperial, que até como açougue já foi utilizado e onde, em alguns silhares, se pode ver a marcação feita para a sua edificação, o Jardim de Diana, a Casa Cadaval – “com a Torre das Cinco Quintas, parte integrante do castelo medieval” -, a Igreja dos Lóios, a Biblioteca Pública, e a Torre de Sertório.
Pode visitar ainda a Casa da Rua de Burgos, na rua com o mesmo nome, de onde algumas saudades guardo.
No interior da casa, pode ver-se desde vestígios desde a Época romana, a exemplo do troço da muralha tardo-romana e das casas com pinturas a fresco, até à época medieval e moderna, sobre os quais se edificou o Palácio.
À entrada, uma pequena mostra de objectos arqueológicos encontrados nas escavações feitas quando das obras de beneficiação do imóvel, ajudam a compreender a ocupação daquele local durante séculos, desde que Roma ali se implantou.
Se puder, vá também até ao edifício da Câmara Municipal de Évora e veja os belíssimos vestígios do laconicum dos balneários romanos aí encontrados.
Ou entre no Museu de Évora e vá conhecer in situ os que nos falam do grande Forum
romano, no centro do qual se implantava o templo circundado com um espelho de água, provavelmente associado à Salus imperial.
Esse Museu de Évora que formalmente se constituiu com a Primeira República, mas que teve a sua origem nas colecções que Frei Manuel do Cenáculo, arcebispo de Évora, reuniu na Biblioteca Pública de Évora .
Fotografia de Frei Manuel do Cenáculo, Biblioteca Pública de Évora.
Para almoçar, se não puder ir ao Colégio do Espírito Santo, almoce na Fundação Eugénio de Almeida, onde há sempre alguma boa exposição para ver.
Relembre-se que a Universidade de Évora, fundada em 1559 pelo Cardeal D. Henrique, futuro Rei de Portugal, a partir do Colégio do Espírito Santo, foi criada por bula do Papa Paulo IV, como Universidade do Espírito Santo e entregue à Companhia de Jesus, que a dirigiu durante dois séculos, sendo a Igreja do Espírito Santo a Matriz de muitas das Igrejas que os Jesuítas construíram pelo mundo.
Em 1759 foi encerrada por ordem do Marquês do Pombal, aquando da expulsão dos Jesuítas.
Após a criação, em 1973, do Instituto Universitário de Évora que aí se instalou, deu origem depois da sua extinção, em 1979, à nova Universidade de Évora.

Em 1973, foi criado o Instituto Universitário de Évora que viria a ser extinto em 1979, para dar lugar à nova Universidade de Évora.
Depois, nunca esqueça de ir à Praça do Giraldo e debaixo da arcaria fresca ver as pessoas passar.
Lá fora, já extra-muros, ou seja, dessas para lá muralhas de todos os tempos, onde silhares mais recentes assentam sobre os cerca de 10 hectares da cerca da Romanidade tardia e onde se abrem arcos que ainda nos cumprimentam latim, para lá das suas torres que querem algus que tenham sido edificadas pelo rei Sisebuto, ou da cintura Árabe ou Fernandina
fazendo como que a ponte com a cidade “nova”, sepenteia-se também imponente aqueduto da Água de Prata, construído entre 1531 e 1537 pelo arquitecto Francisco de Arruda, mas a que alguns autores reconhecem fundação romana.

Recomendo que de Évora traga, se ainda não os tem, quatro belos livros de companhia: Das Cercas dos Conventos Capuchos, de António Manuel Xavier e Tectos Barrocos em Évora de Magno Moraes Mello, editados pelo Centro de História de Arte da Universidade de Évora e também «Objectos Melancólicos. Évora» de Carmen Almeida, não esquecendo essa obra-prima «Évora, Património da Humanidade», com fotografias de Eduardo Gageiro e texto de José Saramago.
Para mais informação geral sobre Évora, recomendo a consulta de : www2.cm-evora.pt www.ippar.pt www.cultura-alentejo.pt
Quem me dera ter podido visitar outros dos meus lugares sagrados: a barragem do Pêgo do Altar; Santana do Campo, Arraiolos, onde a Igreja se sobrepõe ao templo pagão, a Igreja da Represa, Cuba, perto da barragem romana que lhe deu o nome; a igreja do Carmo, na Azaruja, onde um dia uma senhora chamada Estefânia orou no santuário pela criança que ia cuidar: a minha e onde a Casa dos Romeiros foi transformada recentemente em Hotel de Charme. Sim aí quero voltar, porque o tempo não deu desta vez.


Fotografias: Filomena Barata
























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