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Villa Lusitana-Romana dos Casais Velhos (Areia, Cascais)

Em 1945  Afonso do Paço e Fausto de Figueiredo com a ajuda de alguns trabalhadores do Município iniciaram curtas escavações em redor da área descoberta. Pesquisa que terá sido um sucesso, as ruínas foram datadas na sequência de umas moedas dos reinados dos imperadores Constantino, Constâncio II, Teodósio e Arcádio (período de 205 a 450 da nossa era) – o que sugere uma data de construção por volta do segundo século.

Nestes trabalhos foi ainda possível descobrir um balneário de águas quentes e frias, dois cemitérios, restos de uma muralha e algum material cerâmico típico.

Dado o pouco material encontrado e dada a  pequena área escavada pode-se afirmar a sua ocupação no II século, mas mantêm-se em aberto uma datação final de ocupação do local.

Os trabalhos de conservação e limpeza levados a cabo (em 1968, 1970 e 1971) por D. António de Castelo Branco (na época engenheiro dos Serviços Geológicos de Portugal e vice-presidente da Câmara) e seu amigo, Octávio Reinaldo da Veiga Ferreira (também engenheiro dos Serviços Geológicos de Portugal). Segundo estes, por se ter encontrado numa lixeira, abundantes conchas de múrex, molusco marinho de onde provem a púrpura,   este molusco era de grande valia económica na Idade Antiga, já que os Fenícios utilizavam o corante de púrpura (que era extraído de seu interior) como fonte de comercialização. Esse corante era muito valioso e era sinónimo de titularidade real.

Vídeo

Indústria da tinturaria da púrpura 

É  provável que o povoado tivesse como actividade principal a preparação da púrpura. Esta afirmação é corroborada com a descoberta de compartimentos com tinas ou cubas com encaixe para tampas herméticas, que se adequavam ao propósito.

A existência de um edifício no complexo da villa identificado como sendo uma Tinturaria. As tinas serviriam para o tecido ser mergulhado na solução do corante e em seguida posto ao sol para que a cor aparecesse, esta descoberta torna o local único na península ibérica.

«edifício no complexo da villa identificado como sendo uma Tinturaria»

O processo de elaboração da púrpura

O pigmento está presente numa secreção mucosa produzida pela glândula hipocondrial situada junto do tracto respiratório. Esta secreção é incolor enquanto fresca mudando de cor quando exposta ao sol, passando pelo amarelo, em seguida pelo verde e só depois surgindo a cor púrpura característica.

O método geral de produção do corante consistia em esmagar os moluscos inteiros, ou abri-los e retirar a glândula, em seguida salgar essa massa durante três dias e finalmente ferver o conjunto em água durante dez dias.

O resultado era uma solução clara, concentrada, do corante. Restos da carne do molusco eram separados por decantação.

O tecido era colocado numa tina e mergulhado na solução do corante e em seguida posto ao sol para que a cor aparecesse.

A púrpura na vida romana

Um dos mais importantes e mais caros pigmentos naturais da Antiguidade era preparado com tintas de vários moluscos — incluindo murex brandaris e purpura haemostoma encontrados na costa do Mediterrâneo e do Atlântico e nas Ilhas Britânicas.

A púrpura foi sem dúvida o corante de maior renome e mais caro de todos os corantes antigos. Era um símbolo de riqueza e distinção. Na Roma antiga só o imperador tinha o direito de a usar.

O imperador Nero chegou a punir com a morte o seu uso. O corante era produzido a partir de espécies de um molusco do género Murex. Cada espécie do molusco dava a sua variedade de púrpura.

Já os fenícios obtinham o pigmento púrpura de algumas espécies de moluscos gasterópodos do género Múrex, uma das espécies que se comem em Espanha com o nome «cañadilla» ou «cañaílla».

Na Tíria a púrpura mais apreciada era extraída da espécie Murex brandaris. Na cidade de Sidon a espécie Murex trunculus era fonte de uma púrpura cor de ametista.

Cemitério

Como sucedia nas demais uillae, também a de “Casais Velhos” possuía uma necrópole.

A villa possuía três locais distintos de enterramento tardo-romano, dois a sul e um a poente com sepulturas do tipo “caixa”, delimitadas por esteios afeiçoados em calcário, e com os corpos depositados em decúbito dorsal, voltados para Nascente.

Pars Urbana e Aqueduto

A par da domus com vestíbulo, a pars urbana desta uilla era constituída pelo característico complexo termal composto do frigidarium (para o banho frio), de uma sala tépida de transição e do praefurnium, destinado ao aquecimento do ar que circulava sob o pavimento e da própria água dos tanques de configuração semicircular.

Além disso, foi identificado um tanque de grandes dimensões, possivelmente o natatio, tradicionalmente rasgado a céu aberto.

Este era servido por um Aqueduto que transportava a água do nascente do Alto do Selão até à villa de Casais Velhos, numa distância de 700 m.

«estrutura do aqueduto romano»

Haverá ainda que salientar a existência de vestígios de muralha, a fortificação do sítio na Antiguidade.

O povoado de Casais Velhos

O fraco interesse na intervenção arqueológica no sítio que não é prioritária a largas décadas  para a autarquia de Cascais não permitiu encontrar as verdadeiras fronteiras deste povoado, que se afirma desde já ser extenso dado os vestígios nos terrenos envolventes as escavações.

Por outro lado a inércia das entidades competentes na salvaguarda do património e do próprio Município permitiu a urbanização da zona circundante, condenando estudos mais profundos que permitissem a delimitação real da estação arqueológica.

Ironicamente algumas habitações vizinhas entretanto construídas chegam mesmo a evocar a temática romana, utilizando materiais romanos e até motivos decorativos da época. Este panorama contribui para o futuro sombrio dos “Casais Velhos” e adequa-se à profunda falta de respeito perante o nosso passado histórico que as entidades competentes teimam em demonstrar.

Espólio arqueológico

O espólio resultante das intervenções de D. António de Castelo Branco e Octávio Reinaldo da Veiga Ferreira,  não se encontra  infelizmente exposto na Sala de Arqueologia do Museu dos Condes de Castro Guimarães.

Do espólio encontrado destacam-se:

Algumas jóias, como uns brincos de bronze.

Uma agulha de bronze.

Cerâmicas das quais, uma bilha com decoração no bojo.

Lucerna.

E o mais raro, uma moeda ainda envolta em tecido de linho de época romana.

(exemplar raríssimo e do maior interesse histórico. Esta moeda estaria provavelmente ainda na bolsa, sendo que a oxidação do bronze terá impediu que o tecido se desfizesse com o tempo.)

Nota Final

Apesar de classificada como “imóvel de interesse público” por decreto-lei nº29/84 de 25 de Junho de 1984, a vila romana de Casais Velhos está à mercê do tempo e do vandalismo.

São visíveis intervenções de trabalhos menos próprios na zona que desvirtuam e prejudicam o valor histórico do achado bem como o que continua por descobrir.

Após a visita ao sitio arqueológico, ficamos com a ideia que muito falta fazer e descobrir. Certamente Casais Velhos tem ainda muito do seu passado escondido…

Que Casais velhos receba a atenção que merece… nós vamos estar atentos e aguardar que está nota lhe traga uma nova vida!

Localização:
A villa romana de Casais Velhos situa-se a caminho da praia do Guincho, pouco depois de passada a povoação da Areia.
38°43’34.63″N
9°27’50.49″W

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admin

5 Comments

  1. Rui Franco
    2011/08/26 at 08:31

    Este ano, uma parte das minhas férias grandes vai ser "guiada" por este blog :) )

    Obrigado!


  2. Tonho
    2011/12/23 at 18:53

    Em Ilhavo, por tradição, diz-se que antigamente os nossos pescadores, que durante outono e inverno pescavam em Cascais com os «barcos ilhavos», e a «tarrafa» usavam tanques antigos para ENCASCAR(tingir) as redes… e como os tanques de Casais Velhos são junto a uma pequena praia de areia… e já vi a foto de um tanque com uma coloração roxa, que não deve ter ficado da antiguidade classica…… pergunto: Há alguma informação relativa a esse ENCASCAMENTO?????? Falo de situações que podem ter acontecido PELO MENOS desde o Sec XVII ao inicio do sec XX…


  3. rui.franco
    2012/02/12 at 21:36

    À data de hoje (2012/02/12), o local encontra-se bem limpo e preservado, sendo de visita fácil e agradável. Não existe, no entanto, qualquer tipo de informação sobre as estruturas. Também não há indicações ao longo da estrada pelo que é bom levar GPS para chegar ao local sem grandes perdas de tempo.

    Não consegui ver os locais de enterramento. Sendo certo que não levava informação comigo sobre a existência de tais vestígios (mea culpa), a verdade é que não notei nada. Da mesma forma, só terei avistado os vestígios do aqueduto ao meter-me, por pura curiosidade, pelo mato adentro.

    Junto ao local há uma mansão – murada -, ostentando o nome de “Villa Romana”. Trata-se de uma habitação particular sem qualquer ligação com o sítio arqueológico.

    Dei por mim a pensar que a zona das ruínas era agradável para um piquenique… :)

    Fotografias:

    https://picasaweb.google.com/108494373575056781247/VillaDeCasaisVelhos?authuser=0&feat=directlink

    Vídeo:

    http://youtu.be/xfmkWsedGE0


  4. Rui Pedrosa Franco
    2012/04/25 at 19:31

    PR, a longitude (W) está mal. Para nós, o valor é sempre negativo (porque ficamos à esquerda de Greenwich). Assim, mandam as pessoas para… Itália :)


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