Scroll To Top

Núcleo Arqueológico da Rua dos Correeiros – Olisipo (Lisboa)

Os testemunhos do Núcleo Arqueológico da Rua dos Correeiros foram postos a descoberto na sequência de trabalhos de remodelação num edifício pombalino, para servir de novas instalações ao BCP (Banco Comercial Português).

«Reconstituição hipotética do complexo industria»

***

As intervenções arqueológicas, efectuadas por técnicos afectos ao IPPAR (Instituto Português do Património Arquitectónico e Arqueológico), foram financiadas em grande parte por aquela instituição bancária.
A recuperação das estruturas e vestígios arqueológicos encontrados nas caves do edifício, e a sua adaptação por meios modernos a espaço museológico, constituem um caso exemplar, a seguir em futuras obras na baixa lisboeta (e não só) pois que esta área da cidade mantém ainda escondidos muitos dos segredos do seu passado.
A área ocupada pelo Núcleo abrange cerca1000 m², ou seja, o equivalente à largura do quarteirão pombalino e metade do seu comprimento, e nela pode ser feita quase de forma ininterrupta uma viagem no tempo desde a época ibero-púnica até à época pombalina.

Pré-Romano

Desta fase o espaço museológico do BCP apresenta materiais integráveis, cronologicamente, entre os séculos V e II a.C.. Dizem respeito a um conjunto de compartimentos de planta rectangular, com uma base rodeada em pedra cimentada por argila, onde assentam as paredes estruturadas por caniço envolto em argila endurecida.

O pavimento destas habitações ribeirinhas eram em argila e incluem na parte central pequenas lareiras feitas com seixos. Localizadas junto de um dos antigos braços do rio, estas estruturas seriam utilizadas por populações dedicadas a actividades piscatórias e comerciais. O aparecimento de um forno cerâmico numa destas casas pressupõe que em ligação deveria existir uma actividade ligada à olaria. Estes factos não garantem em absoluto, por enquanto, concluir que a actividade conserveira em Olisipo estivesse desenvolvida antes do domínio romano, época em que efectivamente esta indústria adquiriu uma importância assinalável. No entanto, o facto de ter sido encontrado um forno de ânforas na Bacia do Sado, datável do período púnico, e de os estuários deste rio e do Tejo, apresentarem processos semelhantes nas diversas actividades, parece corroborar aquela possibilidade.

«Foto de Vítor Ribeiro(1)»

***

O espólio encontrado é bastante rico e entre as peças mais significativas constam: um prato em cerâmica do séc. V-IV a.C.; potes de cerâmica comum e uma fíbula de bronze, do séc. IV a.C.; uma ânfora púnica do séc. IV a III a.C.; um suporte de ânfora púnica, com a marca de oleiro na parte superior da peça (cada um dos selos mostra um equídeo), atribuível ao séc. I-III a.C.; um fragmento de um prato em cerâmica comum, do séc. III a.C., tendo na superfície interna a gravação estilizada de um barco púnico.

Época  Romana


No Núcleo da Rua dos Correeiros, a época romana, é efectivamente aquela que apresenta um registo histórico mais completo, sendo os vestígios arqueológicos mais abundantes e melhor preservados.
Como resultado da transgressão do rio a partir do séc. III a.C., dá-se a acumulação de areias, que passados mais de duas centúrias, chega a atingir um metro sobre o nível ibero-púnico. À desactivação do lugar e consequente abandono das estruturas existentes, sucede-se, até ao séc. I.d.C., o aproveitamento do espaço para ocupação funerária.

Foram postos a descoberto: parte de uma necrópole onde se verificam dois tipos de rituais funerários – inumação e cremação.
Foram também achadas estruturas de combustão delimitadas por ânforas (tipo Haltern 70) cortadas ao nível do bojo, e uma urna cinerária, em cerâmica comum, atribuível ao período compreendido entre os séculos I a.C. e I d.C., que guardava no seu interior: cinzas, fragmentos ósseos e unguentário.
A partir do séc. I d.C., gradualmente, sobre a praia fluvial foram-se instalando estruturas (cetárias) conserveiras de peixe e preparação de garum.

Este complexo fabril, que se alarga para fora do quarteirão do BCP, permite visualizar 25 tanques de diversas dimensões agrupados em quatro conjuntos, aos quais se tem acesso através de cinco pátios em opus signinum.

A norte das cetárias localiza-se um dos poços que terá servido esta indústria de preparados de peixe. Mostra planta circular e é alimentado pelo nível freático da Baixa. Outros tipos de ânforas ligadas aos preparados piscícolas, achadas no núcleo, são respectivamente, do tipo Almagro e Lusitana e compreendem o período que decorre entre o século IV e V d.C.

«Asa de anfora, com marca de Oleiro – COI»
 
***

O fabrico de preparados piscícolas, depois de períodos de recessão e de outros grande dinâmica, que se reflectem em diversos trabalhos de remodelação dos tanques, entra em decadência nos finais do séc. V.

O lugar é então, de forma esporádica e modesta, mais uma vez utilizado como sítio de enterramento, conforme testemunha a inumação, com cobertura em telha, encontrada entre duas cubas de salga.


Da segunda metade do séc. III, faz parte uma sala cujo chão mostra um mosaico romano (o primeiro a ser encontrado em Lisboa) que se integrava numa área de balneários e permitia o acesso através de degrau às três pequenas piscinas que, possivelmente, dariam apoio ao complexo conserveiro.

A parte visível deste conjunto, formava o frigidarium. É visível ainda, um troço de via romana constituído por lajes calcárias, onde se nota o vincado sulco das marcas dos carros para transporte dos produtos mercantis.


Entre o espólio encontraram-se várias moedas em cobre e bronze: uma da segunda metade do séc. III e oito do século seguinte; uma pequena estatueta em bronze; uma faca; etc..

Relativamente à cerâmica, o destaque vai para um conjunto de recipientes em terra sigillata fabricados no Norte de África, entre os séculos IV e VI, que atesta a importância das trocas comerciais entre Olisipo e esta área do império romano. (Texto de autor, Centro Nacional de Cultura)

NARC:
Rua dos Correeiros, nº 9 r/c
Baixa de Lisboa
2ª, 3ª, 4ª, 6ª e sábado, das 10h00 às 13h00 e das 14h00 às 17h00
5ªs feiras – 15h00 às 17h00
Encerra domingos e feriados
As visitas de grupo (escolas e outros) deverão ser previamente marcadas através do telefone 211 131 004.
 
Site consultados: 
Fundação Millennium BCP
http://www.cm-lisboa.pt/
http://www.museudacidade.pt/
http://www.mnarqueologia-ipmuseus.pt
http://www.igespar.pt
http://www.millenniumbcp.pt
http://e-cultura.sapo.pt

 

About the author

admin

Leave A Response

You must be logged in to post a comment.