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Galerias Romanas da Rua da Prata – Olisipo (Lisboa)

Durante a reconstrução da cidade de Lisboa, na sequência do grande terramoto de 1755, surgiram pela primeira vez notícias da existência de um conjunto de Galerias Romanas no subsolo da Baixa, desenhadas em 1773 por Joaquim Ferreira.

As Galerias romanas, surgidas em 1770, vinte e oito anos antes da descoberta do Teatro de Lisboa, localizam-se junto à R. Conceição / R. Prata e são um dos monumentos mais notáveis de época romana e um dos raros criptopórticos conhecidos em Portugal.

A incipiente noção de património de então levaria a que apenas um pedestal romano com a inscrição em latim dedicado a Esculápio (Deus da Medicina) fosse salvaguardado.

O edifício romano, constatada a sua grande robustez, serviria de alicerce aos prédios pombalinos.


Em 1859, obras de saneamento permitiram, pela única vez, observar restos das construções romanas que se erguiam sobre as Galerias. Foi então feito o levantamento exaustivo das ruínas, um dos trabalhos arqueológicos pioneiros na cidade de Lisboa, pela mão de José Valentim de Freitas.

Visitas esporádicas, com finalidades jornalísticas e de investigação, iniciaram-se em 1909, sendo à data o monumento conhecido por “Conservas de Água da Rua da Prata” por ter sido utilizado pela população como cisterna.

Abririam ao público com regularidade a partir dos anos 80 época em que foi possível à Câmara Municipal de Lisboa criar condições restritas de acessibilidade ao monumento.

A Função

A arquitectura e as técnicas de construção destas Galerias sugerem tratar-se de um monumento da época dos imperadores Júlio-Claúdios (primeira metade do séc. I d.C.), contemporâneos de outros edifícios públicos da cidade romana de Olisipo, actual Lisboa.


Os últimos trabalhos arqueológicos do Museu da Cidade revelaram que as Galerias foram erguidas sobre uma espessa placa artificial de rija argamassa romana (opus caementicium – “antepassado remoto do betão”) colocada sobre a areia. A análise da arquitectura revelou a ocorrência nesta estrutura, ainda durante a época romana.

Estas galerias, desde a sua descoberta, têm sido alvo de diversas interpretações, de Termas a Fórum Municipal.

Conhece-se hoje melhor a sua funcionalidade durante a época romana, seguramente ligada às actividades portuárias e comerciais.

Propostas mais recentes indicam tratar-se de «criptopórticos» – construções abobadadas empregues com alguma frequência pelos romanos em terrenos instáveis ou de topografia irregular para criar uma plataforma de suporte a outras edificações, normalmente públicas.

A inscrição dedicada ao Deus Esculápio

Inscrição dedicada a Esculápio, deus romano da medicina, proveniente do interior das galerias romanas da Rua da Prata. As referidas galerias são por vezes designadas como “termas” embora não o fossem, visto não possuírem piscina, tepidário ou hipocausto.

Esta associação fez-se não apenas pela abundância de água no seu interior, mas também pelo achado da inscrição, que parecia reforçar a possibilidade de no local se tratarem enfermidades.

Hoje em dia, é unânime considerar que a estrutura é um criptopórtico, solução arquitectónica destinada a criar uma plataforma artificial sobre a qual se podiam construir grandes edifícios (neste caso, talvez o fórum de Lisboa), particularmente importante em zonas instáveis e alagadiças.
O registo votivo, constando de um bloco de mármore epigrafado, pertenceria possivelmente ao pedestal de uma estátua de Esculápio, permitindo supor que no local existia um templo, ou outro edifício público, onde se cultuava este deus, de origem grega. Estava integrado nos escombros removidos da zona após o terramoto de 1755, quando as galerias foram pela primeira vez referenciadas, e foi reutilizado na construção de um edifício da época, de onde foi retirado em escavações arqueológicas do século XIX.

Pedestal de estátua; na face superior está patente um orifício destinado ao respectivo encaixe; bloco alisado nas faces laterais e anterior; a peça encontra-se fracturada na face posterior. A paginação do texto segue sensivelmente o eixo de simetria. Os dedicantes apresentam antropónimos de cariz grecizante e identificam-se como augustais; são, evidentemente, libertos. Esta dedicatória a AESCVLAPIVS não está necessariamente associada ao culto imperial, apesar dos cargos religiosos nesse âmbito desempenhados por Marcus Afranius Euporio e por Lucius Fabius Daphnus.

Tradução:

«Consagrado a Esculápio. Marcus Afranius Euporio e Lucius Fabius daphnus, augustais, ao Município como oferenda deram.»

 

«SACRVM / AESCVLAPIO / M(arcus) . AFRANIVS . EVPORIO / ET / L(ucius) . FABIVS DAPHNVS / AVG(ustales) / MVNICIPIO . D(ono) . D(ederunt) //.»

 

“Consagrado a Aesculapio. Marco Afranio Euporio e Lúcio Fábio Daphno, augustais do município, deram e dedicaram”.

Museu Nacional de Arqueologia
Proveniência: Rua da Prata. Lisboa
Cronologia: Época romana – Ano 14-37 d.C.
(Segundo ficha do Catálogo da exposição “Religiões da Lusitânia” da autoria de Carla Alves Fernandes).

Historial do Pedestal consagrado a Esculápio

“[...] achada em 1770, na rua dos Retrozeiros, n’umas grandes thermas provavelmente de aguas mineraes, e ainda ali existe. [...]” HÜBNER, E.,1871.

“(…) existe ainda na Rua da Conceição, numa parede interior da loja com porta para a escada nº83 do prédio pertencente à Sr. D. Thereza Cardoso dos Santos de Sousa Gonsalves. (…)” BORGES DE FIGUEIREDO, A.C., 1889.

“(…) encontrada (…) quando se faziam as escavações para a construção dos prédios nº63 a77 e79 a91 da Rua dos Retrozeiros (…). Pelo proprietário dos actuais prédios foi mandado encravar na parede da loja térrea nº 83 da Rua dos Retrozeiros, do lado direito quando se entra (…) daí foi levado em 1915 para o museu de Belém.” VIEIRA DA SILVA, A., 1944.

“Classificada “monumento nacional”, por decreto de 27 de Dezembro de 1919″. VIEIRA DA SILVA, A., 1944. (MNA)

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O Que Se Pode Ver

Os colectores de esgoto da cidade, construídos desde o século XVIII, não permitem o acesso à totalidade do monumento, truncando uma área das galerias. A parte visitável é constituída por uma rede de galerias perpendiculares, de diferentes alturas, onde se destacam:

Pequenos compartimentos (celas) dispostos lateralmente a algumas das galerias, que poderão ter sido utilizadas na época romana como áreas de armazenamento;

Arcos em cuidada cantaria de pedra almofadada, técnica típica dos inícios da época imperial romana;

“Galerias das Nascentes”, também chamada “Olhos de Água”, que ostenta a fractura, a partir da qual brota a água que invade todo o recinto.

Visitas

Actualmente as galerias podem ser visitadas durante 3 dias, uma vez por ano. A água que inunda as galerias é retirada pelos bombeiros municipais de forma a permitir a visita em grupo, gratuita, durante três dias sob orientação de técnicos do Museu da Cidade.

A entrada da galeria localiza-se na Rua da Conceição, junto ao número de polícia 77 e a visita de cada grupo dura cerca de 20 minutos. A abertura das galerias ao público realiza-se pelo menos desde 1986. Desde 1906 que apenas eram permitidas visitas apenas a jornalistas e investigadores.

Localização:
Galerias Romanas da Rua da Prata
Rua da Conceição (junto ao nº 77)

Para mais informações:
Divisão de Museus e Palácios da Câmara Municipal de Lisboa
Campo Grande 245
1700-091 Lisboa
Tel. 21 751 32 00
E-mail: museudacidade@cm-lisboa.pt

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Saber mais consulte:

 

Fabião, Carlos, 1994
http://www.penelope.ics.ul.pt/indices/penelope_13/13_12_CFabiao.pdf

 

Vieira da Silva, 1985  - “As Termas Romanas da Rua da Pirata em Lisboa”,  Pág. 395
http://geo.cm-lisboa.pt/typo3conf/ext/naw_securedl/secure.php?u=0&file=fileadmin/GEO/Imagens/GEO/Livro_do_mes/Vieira_da_Silva/Dispersos2/MON70P_7.pdf&t=1249588809&hash=df15facaf8bcda09d4e3c21b97f53ce7

 

Projecto de Investigação das Galerias Romanas – Museu da Cidade
http://www.museudacidade.pt/arqueologia/intervenclisboa/projectosinvestigacao/Paginas/Projecto1.aspx

 

Vídeo – Lisboa debaixo de terra As Galerias Romanas da Rua da Prata  - Canal Historia
http://www.youtube.com/watch?v=Ivs6km260Kk&feature=player_embedded#!

 

3D – Three dimensional reconstruction of a 1st century cryptoporticus.
http://www.albatroz-eng.com/demo/roman_galleries2007_po.html

 

Sites consultados:
http://www.cm-lisboa.pt/
http://www.museudacidade.pt/
http://www.mnarqueologia-ipmuseus.pt

 

Bibliografia
As Termas romanas da Rua da Prata (1977)
Monumentos e Edifícios Notáveis do Distrito de Lisboa (1973)

About the author

Raul Losada

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