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Estação Lusitano-romana do Alto da Cideira

O território actualmente abrangido pelo município de Cascais denuncia uma activa ocupação humana desde os tempos mais remotos, tendo sido especialmente explorado durante o período romano, como atestarão, quer os complexos industriais aí identificados, como as uillas exumadas, algumas das quais constituirão, muito provavelmente, os exemplares mais interessantes do ponto de vista da informação arqueológica, de todos quantos têm sido escavados em Portugal, certamente graças à grande proximidade geográfica que sempre manteve com a grande urbe de Olisipo.


À semelhança do que sucedeu com parte significativa dos vestígios de antanho nesta zona, foi o conhecido geólogo Francisco de Paula Oliveira, dos Serviços Geológicos, quem, em finais dos anos noventa do século XIX, referiu pela primeira vez a existência da “”Villa” romana do Alto do Cidreira”, classificada em 1992 como “Imóvel de Interesse Público”.

Foi, contudo, já no ano de 1915 que o “correspondente efectivo” da Associação dos Arqueólogos Portugueses, Félix Alves Pereira (?-1915) visitou o local, numa altura em que o agrónomo Caetano da Silva Luz, visconde de Coruche (1842-1904) efectuara algumas escavações no sítio. Este facto não impediu, contudo, que descobrisse, mais tarde, três tanques revestidos a opus signinum, que acabariam por ser parcialmente destruídos nos anos sessenta pela construção de algumas moradias. Foi, no entanto, necessário esperar pelo final da década de setenta para que o arqueosítio fosse sistematicamente investigado pelos arqueólogos Guilherme Cardoso e José d’Encarnação.


Provavelmente edificada a uma cota relativamente elevada durante o século I d. C. (para o qual apontam os fragmentos de “terra sigillata clara A”), a domus de dois andares desta uilla possuía alguns compartimentos pavimentados com mosaicos policromos, corroborados pelas tesselae exumadas no local. Quanto à pars rustica, foi possível identificar, a par dos três reservatórios acima referidos (vide supra), certos silos medievais e uma bilha da mesma época, a assegurar, no fundo, a reutilização do espaço ao longo dos séculos subsequentes à sua construção inicial, tal como foram reconhecidos elementos atribuídos a períodos de ocupação humana anteriores à estrutura romana em epígrafe, confirmados, por exemplo, na cerâmica campaniense C aí encontrada.


Em conformidade ao que sucede com as demais uillas romanas, também a do “Alto da Cidreira” foi dotada de um complexo termal, com as respectivas condutas de água e hipocausto, infelizmente bastante descaracterizado pela contínua circulação de pessoas e veículos no arqueosítio. Além destes componentes, foi de igual modo encontrado um tanque semicircular pertencente ao frigidarium, bem como o praefurnium, destinado ao aquecimento do ar que circulava sob o pavimento e da própria água dos tanques.


No que diz respeito ao espólio associado, e para além dos supracitados fragmentos de terra sigilatta (vide supra), foi também exumado um considerável número de vestígios de cerâmica comum, bem como inúmeros fragmentos de material de construção, como tegulae e imbrices, de alfinetes de bronze, de pesos de tear, de botões e, finalmente, uma minimáscara de terracota representando um negro, actualmente exposta no Museu dos Condes de Castro Guimarães, em Cascais.


(AMartins-IGESPAR)
http://www.igespar.pt/pt/patrimonio/pesquisa/geral/patrimonioimovel/detail/69674/

Procederam José d’Encarnação e Guilherme Cardoso a algumas sondagens no local, a fim de se perceber da sua real importância e da oportunidade (ou não) de zelar pela sua preservação.
Os resultados obtidos, designadamente em termos de espólio, foram surpreendentes e, por isso, o sítio foi oficialmente classificado, aguardando-se apenas medidas do município de Cascais para a sua concreta valorização.

Trata-se de uma villa onde se identificou parte da domus senhorial — possivelmente o piso térreo, que teria sido pavimentada a mosaico (foto); e com uma zona termal, de reduzidas dimensões.
Na encosta meridional (Bom Sucesso) tinham sido vistos, nos princípios do século, tanques que, pelas descrições que deles nos deixaram (Complexo industrial, possivelmente de tinturaria com duas pequenas tinas de cerca de 1 metro de profundidade. Um grande reservatório alimentava todo o complexo), se afigura comparáveis aos dos Casais Velhos, pelo que uma função idêntica não será, porventura, hipótese a menosprezar.
Do espolio exumado, destaque-se os utensílios ligados á tecelagem (Nolen 1988, 67-68): uma tabuinha de tecelagem, um separador de tear decorado geometricamente e diversos fragmentos de agulhas. E, pelo seu carácter singular, a mini máscara de terracota (22 x 24 mm.) representando um negro.

Adaptação de texto:
A VILLA ROMANA DE FREIRIA E O SEU ENQUADRAMENTO RURAL
José D’Encarnação Universidade de Coimbra
Guilherme Cardoso Associação Cultural de Cascais
Pag.206/207

Zona Especial de protecção da Villa Romana
A Empresa Neoépica realizou em 2007 uma intervenção na ZEP (zona especial de protecção)a sul da villa romana do Alto do Cidreira – Cascais.
Intervenção realizada em 2007 que levou à recolha de uma série de importantes elementos de diferentes contextos e cronologias. Destaque para o troço do aqueduto romano colocado a descoberto bem como da necrópole romana situada nas proximidades.
Actualmente e por parecer positivo iniciou-se a urbanização do local… resta-nos admirar o aqueduto pelas fotos (Não se podendo, obviamente, preservar tudo, há que seleccionar… )
Vídeo do Aqueduto romano do Alto da Cidreira (ZEP) – Neoépica – Arqueologia e Património
http://www.youtube.com/watch?v=XjY1cifaXxY

LOCALIZAÇÂO:  Cascais, Alto da Cidreira  (38°43’16.99″N –  9°25’24.04″W)

 

Bibliografia:
A villa romana do Alto do Cidreira em Cascais / José d’Encarnação, Guilherme Cardoso, Jeannett U. Smit Nolen, (1982)
A Villa Romana do Alto do Cidreira, Alcabideche – Cascais : os materiais / Jeannette U. Smit Nolen
Alcabideche (Junta de Freguesia) 1990
A antiguidade do Concelho de Cascais (Resenha de trabalhos realizados em 1915 e 1917)/A Nossa Terra (1917)
Antiquitus XVI. Ruinas romanas perto de Cascais/Diário de Notícias (1917)
Antiquitus/O Arqueólogo Português (1916)
Antiquitus/O Arqueólogo Português (1918)
Cascais no Tempo dos Romanos (1986)
Cascais no tempo dos romanos/Revista de Arqueologia (1990)
Entre Alvide e Abuxarda/Diário de Notícias (1915)
Esboço arqueológico do concelho de Cascais/Boletim do Museu Biblioteca dos Condes de Castro Guimarães (1943)
Muitos vestígios arqueológicos de Cascais ainda estão por explorar e correm o risco de se perder/Jornal da Costa do Sol (1973)
A Villa romana de Freiria (S. Domingos de Rana)/Arqueologia (1988)
A villa romana do Alto do Cidreira (Cascais). Os materiais/Conimbriga (1988)
Alto do Cidreira/Informação Arqueológica (1983)
Alto do Cidreira/Informação Arqueológica (1984)
Antiquités préhistóriques et romaines des environs de Cascaes/Comunicações da Comissão de Trabalhos Geológicos (1889)
Cascais no Tempo dos Romanos (1986)
Cascais no tempo dos romanos/Revista de Arqueologia (1990)
Descoberta de uma mini-máscara de terra cota na estação Lusitano-romana do Alto da Cideira, Cascais/Estudos Italianos em Portugal (1972)
Muitos vestígios arqueológicos de Cascais ainda estão por explorar e correm o risco de se perder/Jornal da Costa do Sol (1973)
Notas sobre alguns vestígios romanos no concelho de Cascais (1968) Notas sobre alguns vestígios romanos no concelho de Cascais (1968)

Álbun Fotográfico

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2 Comments

  1. Rui Pedrosa Franco
    2012/04/25 at 19:34

    Aqui, também têm de colocar a longitude (W) com valor negativo.


  2. FernandoLlopes
    2012/08/30 at 11:38

    “Não se podendo salvaguardar tudo”?Não percebi muito bem,se estava classificado como foi possível urbanizá-lo?


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