Arandis ou Arani era uma cidade céltica situada na actual Garvão, Ourique. Aparece como Arandis na Geographia de Ptolomeu e como Arani no Ravennate (Rav. IV 43).
O lugar do Cerro do Castelo ou Forte de Garvão regista ocupação pelo menos desde o Bronze final; muitos vestígios de romanização; ocupação continuada durante o período árabe.
“Aranni”, pensa-se, foi o seu primeiro nome na Época Romana. Ptolomeu falava de “Arandis” como sendo uma cidade Céltica. Os Mouros chamavam-lhe “Garabon”, que significa “corvo”, e daí aparece “Garvão” como é hoje conhecido.
Garvão teve origem em tempos muito remotos, atribuídos à Época do Ferro, ou mesmo anteriores. A comprovar estas suspeitas, há vestígios arqueológicos no Forte, na Rua do Castelo e em muitos outros sítios.
O estudo sobre os cerros de Garvão, com vista ao traçado hipotético da muralha que delimitou o espaço correspondente ao povoado ali existente na Idade do Ferro (área interior estimada em 5/6 hectares), associado a um dos grandes centros da espiritualidade proto-histórica do Sudoeste peninsular, dado a conhecer por Caetano Mello Beirão e colaboradores em 1985.
Duas colinas de topo aplanado, o Cerro da Vila e o Cerro do Forte, situados na fértil várzea onde confluem as Ribeiras de Garvão e de S. Martinho, constituem, desde a Idade do Ferro, um local de passagem incontornável das grandes rotas, charneira entre o acesso aos portos atlânticos e as vias de ligação ao mundo mediterrânico, bem como à área celtizante com desenvolvimento para Nordeste.
O Professor Jorge de Alarcão, defende tratar-se de um dos pontos de paragem mediando Alcácer do Sal e Mértola na jornada entre o estuário do Sado e os Tartessos, mencionada por Estrabão(?).
Esta conjuntura, onde os indícios de assentamento humano mais antigo são atribuíveis à Idade do Bronze Final, foi determinante para o estabelecimento do santuário da II Idade do Ferro e para o desenvolvimento do povoado.
A fortificação do Povoado de Arandis
Actualmente, encontra-se camuflada pelo seu próprio derrube e pela consolidação do solo sobre o mesmo; em alguns segmentos foi destruída pela acção humana, na sequência do desenvolvimento da povoação.
A planta proposta constitui uma primeira hipótese de implantação da muralha, resultante da análise da topografia, interpretação das anomalias no terreno e informação das intervenções arqueológicas realizadas e que abrangeram alguns troços, nomeadamente por Teresa Ricou, em 2002, em que se expôs um com cerca de 2.60 metros de espessura, a Sudeste do Cerro da Vila, associado a níveis estratigráficos da Idade do Ferro.
Santuário
Nas proximidades da povoação de Garvão terá existido uma estrutura religiosa. O Culto incluía oferendas, estas acumularam-se até ao momento em que foram depositadas.
Em 1982, após a sua descoberta acidental durante a instalação de infra-estruturas sociais, realizou-se uma campanha de trabalhos arqueológicos, dirigidos por Caetano de Mello Beirão, na altura Director do Serviço Regional de Arqueologia da Zona Sul. Esta escavação deu a conhecer o Depósito Votivo da II Idade do Ferro, na encosta do Cerro do Castelo, em Garvão, que suscitou o interesse e o entusiasmo da comunidade científica face à dimensão e qualidade do espólio que encerrava, constituído por cerâmicas, metais e alguns vidros, intencionalmente depositados e cuidadosamente organizados de modo a optimizar o espaço disponível. Na área foi escavada uma cavidade para armazenar as oferendas não desejadas. É elíptica, com cerca de 10 por 5 metros e uma profundidade de aproximadamente de 0,80 m, concluída na segunda metade do século III a. C.
Com excepção de alguns exemplares seleccionados e restaurados que integraram o acervo do Museu Nacional de Arqueologia, este conjunto de materiais ficou armazenado, desde o final dos anos 80, primeiro em Évora, depois em Conímbriga, a aguardar a oportunidade para ser tratado, estudado e apresentado ao público.
Foram encontrados inúmeras placas oculadas em ouro e prata. Este facto aponta para culto de uma divindade com poderes profilácticos nas doenças de olhos. Com efeito, foram de igual modo encontrados artefactos metálicos, líticos e vítreos. São disso exemplo os oenochoai, as fíbulas e as argolas de bronze e de prata, um anel – também ele de prata -, assim como algumas contas de colar realizadas em cornalina e vidro.
Mas, para além deste ecléctico conjunto de peças de cariz mais utilitário e de adorno, foram exumadas peças que pertencerão ao domínio “votivo”. Delas, fazem parte placas oculadas – rectangulares, trapezoidais ou bi-circulares -, e duas de prata decoradas com figura feminina.
Todas estas circunstâncias parecem legitimar a hipótese, segundo a qual teria funcionado um santuário no cimo do “Cerro do Castelo” associado a um povoado mais antigo, como parece indiciar a recollha de cerâmicas pertencentes ao Bronze Final.
Este sítio ter-se-á revestido de uma considerável importância em termos de um determinado ideário mágico-religioso, uma vez que foi reutilizado ao longo dos tempos, como atesta a presença de estruturas templares do período romano, confirmada por duas colunas de mármore recolhidas na própria vila de Garvão.
O importante grafito do depósito votivo da cidade de Arandis (Gravão)
A descoberta destas inscrições na base de uma taça no Depósito Votivo de Garvão do século II a.c., coloca Garvão e Alcácer do Sal, (pelas moedas encontradas), os locais onde mais tardiamente se manifesta a utilização e o conhecimento desta escrita, para muito além do que era vulgarmente entendido.
“Em Garvão identificou-se um grafito (Alarcão e Santos 1996, 272 nº 32), de leitura discutida (Correa 1996a), sobre a base de um vaso do depósito votivo. Independentemente da sua leitura o seu achado é muito importante pela sua cronologia e a sua paleografia significativa pela sua proximidade à da amoedação de Alcácer do Sal (cf. Correia 2004b).”
“O grafito de Garvão documenta a extensão do uso da escrita do Sudoeste, mesmo já fora do seu uso mais tradicional da epigrafia funerária, até meados do séc. II a.C. (Beirão et alii 1985, Correia 1996b); é essa data do fecho do depósito votivo e o grafito foi feito numa das peças de tipologia mais comum nesse depósito, sendo por isso natural pensar que não era uma peça muito antiga quando foi ocultada.
Esta datação permite afirmar que o grafito de Garvão é genericamente contemporâneo da legenda indígena da amoedação de Alcácer do Sal, sendo portanto necessário abandonar o mais forte argumento quanto à não pertença dessa amoedação ao signário do Sudoeste, que era precisamente a questão das datas conhecidas de utilização de um e de outro (Correia 2004c).
Retirado este Argumento (contra Faria 1991), não há razão para se não valorizarem alguns indícios paleográficos presentes numa e noutra inscrição, que abonariam a favor da pertença de ambos ao mesmo corpus epigráfico, o do Sudoeste.”
(em: A ESCRITA DO SUDOESTE: UMA VISÃO RETROSPECTIVA E PROSPECTIVA,
Virgílio Hipólito Correia
O Bracaru Ladrunos em terras de Arandis
“A Herdade dos Franciscos è um dos latifúndios da freguesia de Garvão, situando-se apenas a cerca de 1km a sul daquela vila localização de Arandis.
A Zona de planície, em terreno lavrado numa extensão de cerca de 300m ocorre dispersão de materiais cerâmicos de construção, cerâmica comum, sigillata e vidro. Desse local parte um caminho de terra batida que liga ao Monte do Arzil, incorporado no mesmo encontram-se fragmentos de vestígios de uma villa romana que poderá indicar uma continuidade de ocupação no espaço.
O monumento funerário foi descoberto avulso, numa extensa zona da herdade onde se observam ruínas, talvez de um vicus, ou de uma villa rustica e de onde provêm outros materiais do período romano.”
“Caetano Beirão e José Olívio Caeiro procederam ali a escavações de emergência, numa área que iria ser afectada pela construção de uma estrada, identificando-se na altura restos de estruturas habitacionais e materiais romanos que abrangem um período situado entre os séculos I e III d.C.”
“A leitura desta epígrafe é a seguinte:”
LADRONV[S] / DOVAI • BRA[CA]RVS • CASTEL[LO] / DVRBEDE • [H]IC / SITUS • ES[T] • AN[N]ORV[M] XXX (triginta?) / [S(it)] • [T(ibi)] • T(erra) • L(evis) •
“A sua tradução parece não oferecer grandes problemas propondo-se:”
Aqui jaz Ladronus (filho de) Dovaios, Bracarus do Castello Durbed, de trinta anos de idade. Que a terra seja leve.
“A estela dos Franciscos é, pois, um importante monumento, atribuível ao séc. II ou aos inícios do século III d.C., cuja forma e realização se integra, como vimos, no tipo de lápides encontradas no Sudoeste Alentejano (concelhos de Aljustrel, Ourique e Almodôvar) (Encarnação, 1978), embora o seu conteúdo mantenha estreitas ligações com a epigrafia do Noroeste, sobretudo no plano onomástico, para o qual encontrámos paralelos maioritariamente no Conventus Bracarensis.”
“Ainda recentemente também M. Manuela A. Dias (1979), num bem fundamentado trabalho, reconheceu a origem norte-peninsular de muitos antropónimos registados em estelas do Conventus Pacensis, encontrando uma possível explicação na emigração com vista aos trabalhos de mineração. Estes movimentos migratórios que fazem instalar populações do norte da península no Sul e Sudoeste Ibérico, ocupadas tanto na agricultura como na mineração, mostram, em última análise e de modo claro, as diferentes dinâmicas da ocupação territorial da Península, revelando-nos afinal a mesma fraca densidade populacional que ainda hoje conhecemos nas terras do sul, mais avessas à instalação das comunidades humanas.”
(Em: GOMES, Rosa Varela; GOMES, Mário Varela (1984)
Uma estela epigrafada da Herdade dos Franciscos, “Conimbriga”, 23, p. 43-54)
Bibliografia: Achados de moedas romanas do concelho de Ourique/O Arqueólogo Português (1977) Depósito votivo da 2ª Idade do Ferro de Garvão/O Arqueólogo Português (1985) Garvão. Pretexto para visitar os bastidores de um museu/Al-madan (1983) Sites consultados: http://www.monumentos.pt http://www.igespar.pt/pt/ http://www.garvao.net/












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