Feitoria Fenícia e Olaria romana de Abul
A feitoria fenícia de Abul encontra-se situada na Reserva Natural do Estuário do Sado, escondida há mais de 2500 anos, foi descoberta em 1990 por trabalhos arqueológicos.
Os vestígios da feitoria (Fig.2 Zona A) datam dos séculos VII e VI a. C. Além de ser o primeiro assentamento fenício conhecido em Portugal, é também um sítio único em toda a fachada atlântica europeia. A sua estrutura copia os modelos arquitectónicos dos palácios da Região do Líbano e Palestina, revela o clássico modelo de organização do espaço, numa planta quadrada que indica que a área teria funções comerciais e habitacionais.
As estruturas de alguns armazéns, de pequenas casas e de um pátio interno podem ser facilmente observadas.´Os estudos arqueológicos mostram que houve duas fases de construção da feitoria.
A primeira tem um muro com mais de um metro, incluído numa superfície de mais de 500 metros quadrados. A seguinte, no século V a.C., revela muros reconstruídos em maior tamanho, armazéns ampliados e um corredor de circulação em torno de um pátio central, onde se pode identificar um santuário.
“Os fenícios, tendo triunfado nos seus negócios, acumularam grandes riquezas e resolveram navegar para o mar que se estende fora das Colunas de Hércules e que é chamado Oceano” Diodoro de Sicília ou Sículo – Historiador Grego do Século I a.C..
O sítio é interpretável como porto natural, em contexto estuarino, dotado de condições de fundeadouro (Fig.2 Zona C) e de varadouro, permitindo o trânsito portuário associável tanto ao estabelecimento de época fenícia como ao escoamento fluvial da produção dos fornos romanos.
O Comercio Fenício
«O comércio fenício baseava-se na introdução de uma diversidade de exóticos produtos orientais, documentados pelas fontes históricas e residualmente recuperados no registo arqueológico, alguns dos quais ao longo das costas Sul e Ocidental de Portugal (até ao Mondego).
De destacar: pastas vítreas, papiros, incensos, especiarias, âmbares, ébano, marfins, ovos de avestruz, seda, linho, tecidos tingidos com púrpura de Tiro (processada a partir do gastrópode marinho Murex), brocados de Sídon, peças trabalhadas em metal, nomeadamente fíbulas e intrincadas filigranas em delicados adornos de ouro (um legado ainda hoje sobrevivente na nossa ourivesaria), além de abundante cerâmica, nomeadamente de engobe vermelho e ânforas R-1.
Em troca, para o Oriente, transportavam materiais em bruto, como madeira de cedro e de pinho; metais como ouro, prata, cobre, ferro e estanho; vinhos, azeites, sal e derivados de peixe, entre outros. Com o desenvolvimento do seu comércio, os fenícios tornaram-se, sobretudo, verdadeiros intermediários.
Neste contexto, vão disseminar-se estabelecimentos fenícios (feitorias, colónias e santuários!) ao longo da costa turdetana, nomeadamente ao longo do litoral ocidental e Algarve, preferencialmente nas margens e estuários dos grandes rios: Guadiana (Castro Marim); foz do Gilão (colina de Santa Maria em Tavira); Sado (Setúbal, Abul e Alcácer do Sal) e Arrábida (!); Tejo (Santarém, Lisboa e Almaraz); e Mondego (Santa Olaia e Conímbriga). Também o Alentejo interior (Redondo) e litoral, Baixo e Médio, sentiu as influências orientalizantes.
Todos estes espaços denotam características mediterrâneas típicas que se manifestam a nível climático e paisagístico, em particular no que diz respeito ao coberto vegetal. Regiões assentes na trilogia mediterrânea – pão, vinho e azeite – devendo ainda acrescentar-se, no caso português, o sal, o peixe e os seus derivados.»
Em fotoarchaeology.blogspot «”Kochab” a estrela fenícia» de Ricardo Soares
Olaria romana de Abul
Sobre as ruínas fenícias de Abul, que permaneceram sem ocupação por mais de seis séculos, foram também encontrados três fornos romanos, uma olaria romana (Fig.2 Zona B) para a produção de variados tipos de ânforas, e que funcionou dos séculos I a III d.C..
Classificação
Classificação como Monumento Nacional (MN) dos Núcleos do Sítio Arqueológico de Abul, freguesia de Santa Maria do Castelo, concelho de Alcácer do Sal.
Diário da República, 1.ª série — N.º 3 — 4 de Janeiro de 2013 – 7424-(303)
Decreto n.º 31-L/2012:Procede à classificação como monumento nacional dos Núcleos do Sítio Arqueológico de Abul, no Monte Novo de Palma, freguesia de Santa Maria do Castelo, concelho de Alcácer do Sal, distrito de Setúbal.
Livro recomendado:
Abul. Fenícios e Romanos no vale do Sado Autores: Françoise Mayet e Carlos Tavares da Silva Data: 2005 Edição: Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal (MAEDS) 108pp. – ISBN : 972-9253-23-Livro-guia Abul. Fenícios e Romanos no vale do Sado é uma obra de referência para o Distrito de Setúbal capaz de cativar variados públicos, constituindo valiosa síntese dos trabalhos ali realizados nos anos 90 do século XX. Os seus autores, Carlos Tavares da Silva e Françoise Mayet, compilaram neste guia, o que haviam publicado em duas obras monográficas sobre este sítio, em um texto bilingue (português/francês), acompanhado de documentação gráfica e fotográfica que nos transporta para o centro da feitoria fenícia, do santuário do século V a. C. e da olaria romana, de uma forma clara e acessível.
PVP: 19€
Bibliografia dos Núcleos do Sítio Arqueológico de Abul
MAYET, Françoise; SILVA, Carlos Tavares da; Os fenícios no estuário do Sado. In Actas do Encontro Sobre Arqueologia da Arrábida.
Mayet, Françoise; Silva, Carlos Tavares da. Abul: Fenícios e Romanos no vale do Sado. Setúbal, Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal e Assembleia Distrital de Setúbal, 2005
MAYET, Françoise; SILVA, Carlos Tavares da; Makaroun Yasmine. L’établissement phénicien d’Abul (Portugal). In Comptes-rendus des séances de l’année… – Académie des inscriptions et belles-lettres, 138e année, N. 1, 1994. pp. 171-188
MAYET, Françoise; SILVA, Carlos Tavares da. «Abul: um estabelecimento orientalizante do século VII a.C. no baixo vale do Sado». In Setúbal Arqueológica, Setúbal: Assembleia Distrital de Setúbal, Vol. XXI, 1992, pp. 315-333
Bibliografia da presença fenícia na Península Ibérica
ADAMS, J. (2001) – Ships and boats as archaeological source material. World Archaeology, Vol. 32(3), Shipwrecks, p. 292-310.
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BRAUDEL, F. (1998) – Memórias do Mediterrâneo: Pré- História e Antiguidade. Terramar, ed. 2001, Lisboa.
GUERRA, A. – O mundo da Ora Marítima. In MEDINA, J. ed. – História de Portugal. Lisboa: Ediclube. Vol. II, Coordenado por Victor S. Gonçalves, p. 11-16.
OLIVEIRA, F.; THIERRY, P.; VILAÇA, R. (Coords.) e ARRUDA, A. M. (colab.) – O mar greco-romano antes de Gregos e Romanos: perspectivas a partir do Ocidente peninsular, Mar Greco-Latino. Actas do Congresso Internacional O Mar Greco-Romano, 2006, p. 31-58.








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kiketapt
2013/03/31 at 12:33