«Corria o ano 7 depois de Cristo quando, na casa do recém-chegado romano Iulius Cilo, numa das encostas do Monte Murado, se estabeleceu a mais velha aliança de que há registo escrito em toda a região. Gravado sobre uma placa de bronze materializava-se um tratado de hospitalidade entre o cidadão romano (simbolizando, afinal, os novos invasores e senhores da região) e o povo que habitava o castro existente naquele monte: os Túrdulos Veteres. Um povo com origens no sul da Península que, séculos antes, durante uma expedição guerreira se havia “esquecido” do caminho de volta para a sua pátria…»
Castro do Monte Murado ou da Senhora da Saúde – A cidade dos Turduli Veteres
Hoje os vestígios do velho povoado são quase invisíveis naquela elevação, agora mais conhecida pela designação de Senhora da Saúde em virtude do santuário católico entretanto construído no seu topo. Contudo as placas que registavam a velha aliança entre túrdulos e romanos, descobertas há poucos anos no subsolo do Monte, sobreviveram aos dois mil anos que nos separam desses momentos, lançando preciosas luzes sobre as sombras dos nossos antepassados. Afinal, sobre as nossas próprias sombras…
Durante a construção de uma casa clandestina, decorria o ano de 1983, a meio da encosta voltada a nascente do Monte da Senhora da Saúde, são descobertas, entre outros vestígios arqueológicos, duas estranhas placas de bronze sobre as quais era bem perceptível a gravação de textos em latim. Para quem as fez chegar às mãos dos especialistas tratava-se de um curioso achado. Para estes últimos, no entanto, estávamos em presença de uma das maiores descobertas arqueológicas registadas na região durante as últimas décadas.
Dias depois os arqueólogos escavavam já no local. E escavavam com uma certeza muito rara em arqueologia. Não só sabiam que escavavam uma casa romana, datada muito provavelmente dos inícios do século I da nossa era, como desconfiavam que, com grande probabilidade, sabiam o nome do seu proprietário original: Decimus Iulius Cilo. Na base destas certezas e suposições estavam as leituras e interpretações das placas de bronze que aí haviam sido recolhidas e que se haviam revelado como duas “tesserae hospitales”, isto é, dois quadros sobre os quais se havia inscrito um pacto de hospitalidade entre o então recém-chegado romano e o povo que, há já vários séculos, habitava o castro existente no topo e parte das vertentes desta elevação.
Graças às referências que são feitas nestes pactos aos cônsules romanos que então desempenhavam as suas funções nesta região do Império, foi também possível datar com grande precisão estes documentos. Assim, se a primeira das tesseras é do ano 7, a segunda (a que se encontra mais bem preservada) data do ano 9. Entre uma e outra dista contudo muito mais do que dois anos. Com efeito, embora os intervenientes do pacto fossem os mesmos, ou seja, Iulius Cila e representantes dos indígenas, e se em termos cronológicos tivessem decorrido apenas dois anos, a verdade é que do ponto de vista cultural, histórico e administrativo a diferença é substancial. Se na primeira das tesseras se estabelecia apenas um acordo de hospitalidade entre indivíduos, seus filhos e descendentes, sendo aparentemente um acordo entre iguais, na segunda tessera o pacto é não só de hospitalidade mas também de clientela, assumindo já um estatuto de desigualdade, uma vez que o cidadão romano surge não só na condição de hóspede, mas também já de patrono obrigando, entre outros, a laços de fidelidade por parte da sua clientela. Esta rápida evolução no registo destes pactos é perfeitamente compreensível no quadro da dominação e romanização significativamente aprofundada nesta região durante este período, após a pacificação dos povos conquistados.
O populus dos Turduli Veteres
Uma das maiores preciosidades que estes objectos revelaram, ao indicar que se tratava dos Turduli Veteres, isto é, dos Túrdulos Velhos. Com efeito, e até ao aparecimento destas “tessarae hospitales”, as referências a esta entidade étnica da Idade do Ferro eram conhecidas apenas através das fontes clássicas, nomeadamente pelo que nos foi deixado escrito pelos geógrafos e historiadores gregos e romanos Estrabão, Plinio e Mela.
Originalmente situados, juntamente com os turdetanos, no sul da Península, entre Sevilha e o Sado, os túrdulos terão começado a receber forte influência das populações célticas localizadas no interior e na costa oeste.
Influência que resultará mesmo numa futura aliança e migração/excursão guerreira que juntos fizeram em direcção ao Norte. A moderna arqueologia relaciona estas alianças e as migrações internas por parte dos Túrdulos e Turdenatos com as profundas mutações de ordem económica e social decorrentes do desaparecimento, no que é hoje o Sul de Portugal e a Andaluzia, da cultura tartéssica e da crise do mundo fenício colonial durante o século VI a. C.
A primeira e melhor notícia desta excursão dos túrdulos em direcção ao norte são descritas por Estrabão, embora na altura tal episódio tivesse já alguns contornos lendários. Na sua narrativa este geógrafo grego indica que nas cercanias do actual cabo Finisterra se encontravam uns celtas que para aí se haviam deslocado na companhia de túrdulos, durante uma expedição guerreira. No entanto, e ainda segundo Estrabão, chegados ao rio Lima, mal o haviam passado gerou-se entre eles tal discórdia que, morrendo o chefe dos túrdulos, e “esquecidos” da aliança que haviam feito, tiveram que ficar no mesmo sítio “esquecendo” o caminho para a sua antiga pátria. Por isso mesmo, explicava ainda Estrabão, ao Rio Lima se chama também Rio do Esquecimento.
Não terão, contudo, permanecido ”esquecidos” sempre no mesmo sítio. Com efeito, meio século depois de Estrabão um outro autor clássico, Pompónio Mela, indica que os Turduli Veteres estavam já um pouco mais a sul, ocupando a região entre o Munda (o actual Mondego) e o Douro. Localização que, trinta ou quarenta anos depois, também Caio Plínio refere em relação a esta entidade étnica. E que, finalmente, dois mil anos depois, as tesseras do Monte Murado vieram comprovar.
“Tessarae Hospitales” do Castro do Monte Murado (ou da Monte da Senhora da Saúde)
As tesseras são placas em bronze, pesando perto de dois quilos e com dimensões que variam entre uma largura e alturas máximas respectivamente de 26 e 35 centímetros. Estes preciosos objectos são constituídos por duas partes distintas: o corpo rectangular sobre o qual é gravado o texto, em cinco linhas numa das peças e em nove na outra; e por um frontão triangular (muito destruído na tessera mais antiga) que encima a área da inscrição. Este frontão, decorado pela aplicação de uma moldura, não só prestava alguma dignidade e “monumentalidade” às peças, mas possuía também uma função simultaneamente prática e simbólica muito importante. Com efeito, nos ângulos inferiores do frontão, as tesseras apresentariam palmetas. Na do ano 9 pode-se mesmo observar a palmeta do lado esquerdo, enquanto que na tessera mais antiga são também visíveis vestígios da sua existência do mesmo lado. Ter-se-ão perdido as do lado direito? É opinião de alguns investigadores que a sua ausência não é fortuita já que, provavelmente, se ficará a dever ao facto destas aletas terem sido propositadamente retiradas das tesseras e levadas, como prova, por uma das partes envolvidas no tratado, ou seja, por aquela que não ficava com a posse da tessera (neste caso pelos representantes dos túrdulos).
Com alguma facilidade observa-se, igualmente, as inscrições latinas gravadas sobre as placas de bronze, cujas traduções, realizadas por Armando Coelho F. da Silva, aqui se transcrevem:
“Sendo cônsules Q(uintus) Caecilius Metellus e A(ulus) Licinius, D(ecimus) Iulius Cilo, filho de D(ecimus), da tribo Galeria, fez um pacto de hospitalidade para si, seus filhos e descendentes com Niger, Rufus e Priscus, (dos) Turduli Veteres, seus filhos e descendentes” (datada do ano 7 d.C.).
“Sendo cônsules Q(uintus) Sulpicius Camerinus e C(aius) Poppaeus Sabinus, D(ecimus) Iulius Cilo, filho de M(arcus), da tribo Galeria, fez um pacto de hospitalidade com Lugarius, filho de Septanius, dos Turduli Veteres, e recebeu-o a si, aos seus filhos e descendentes na fidelidade e clientela de si próprio, de seus filhos e de seus descendentes. Lugarius, filho de Septanius, fez” (datada do ano 9 d.C.).
As tesseras do Castro do Monte Murado (objectos arqueológicos bastante raros, conhecendo-se apenas cerca de três dezenas em toda a Península Ibérica) terão que se deslocar ao Solar Condes de Resende, em Canelas (Vila Nova de Gaia), onde se encontra instalada a Casa Municipal de Cultura.
Uma viagem e visita ao “mundo” dos túrdulos do Monte Murado não se esgota obviamente no Núcleo Museológico de Arqueologia. Torna-se quase obrigatório um “salto” até ao próprio Monte, na freguesia de Pedroso, junto aos Carvalhos. Infelizmente, apesar de uma área significativa da elevação ter sido já declarada em 1972 como zona onde não era possível construir e não obstante a sua classificação como Imóvel de Interesse Público em 1990, os vestígios arqueológicos detectados do antigo Castro não têm sido devidamente salvaguardados dada a enorme pressão imobiliária na área. Assim, ao visitante menos atento nada haverá no Monte que lembre a antiga existência no local do povoado dos Túrdulos. Contudo, ao leitor mais habituado ao palmilhar dos montes e à descoberta e identificação de vestígios arqueológicos, não será difícil detectar à superfície de algumas das áreas florestadas do Monte restos de antigas telhas e cerâmicas do castro, bem assim como indícios de muros enterrados e mesmo alguns troços das muralhas. Enfim, as provas de que o subsolo do Monte da Senhora da Saúde guarda ainda importantes dados param o conhecimento da História Antiga desta região.
No alto da elevação o visitante tem vários motivos de interesse. Desde logo, e se as condições climáticas e a (ausência da) poluição atmosférica o permitirem, poderá desfrutar de uma bela panorâmica. Com efeito, não obstante a sua altura não ultrapassar os 230 metros, o Monte Murado é uma elevação proeminente em relação a uma vasta área plana que a circunda. Tais condições topográficas e estratégicas estiveram, de resto e seguramente, na base da sua escolha, por parte dos Túrdulos, para a localização do povoado.
Castro – Cidade dos Turduli Veteres
O Monte Murado, ou da Senhora da Saúde, situa-se na freguesia de Pedroso do concelho de Vila Nova de Gaia. A melhor referência de localização é, no entanto, a famosa povoação dos Carvalhos, atravessada pela concorrida Estrada Nacional nº1, já que é na sua extremidade sul que se depara com esta elevação. O acesso ao santuário da Senhora da Saúde e ao topo do monte – um arruamento de inclinação bastante acentuada – encontra-se bem sinalizado e depara-se do lado direito, logo depois de passar os Carvalhos, para o leitor que, acedendo pela EN1, se desloque na direcção norte-sul.
Museu de arqueologia – “tesserae hospitales”
Para observar as “tesserae hospitales” há, no entanto, que aceder ao Núcleo Museológico de Arqueologia de Vila Nova de Gaia, situado no Solar Condes de Resende (Travessa Condes de Resende, 110) local escolhido pela Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia para instalar a sua Casa Municipal de Cultura. Foi neste espaço que em 1993, durante o 1º Congresso de Arqueologia Peninsular, foi inaugurado o Núcleo Museológico de Arqueologia onde agora se encontram expostas as tesseras do Monte Murado.
Núcleo Museológico de Arqueologia, não só as tesseras do Monte Murado mas também um conjunto muito significativo de antigos vestígios da passagem e da fixação do Homem no território do actual concelho de Vila Nova de Gaia, do recuado Paleolítico à Idade Contemporânea. O horário de abertura ao público é de segunda a sexta-feira das 10 às 12 horas e das 15 às 17 horas. Aos sábados está igualmente aberto das 15 às 17 horas.
O acesso ao Solar Condes de Resende encontra-se bem sinalizado na estrada que liga o centro de Gaia (Largo de Santo Ovídio, ao cimo da Avenida da República) a Canelas. Deverá no entanto o leitor seguir com alguma precaução dada a profusão de placas publicitárias e toponímicas e contar com uma viagem que, de carro, demorará cerca de quinze minutos.
*Este documento foi elaborado de: Joel Cleto – Monte Murado, Carvalhos. A mais velha aliança. O Comércio do Porto. Revista Domingo, Porto, 11 de Fevereiro 2001, p.20-22
Para saber mais: Antonio GARCÍA Y BELLIDO – “La España del siglo primero de nuestra era. Según P. Mela y C. Plínio”. 2ª ed. Madrid: Espasa-Calpe, 1977. Antonio GARCÍA Y BELLIDO – “España y los españoles hace dos mil años. Según la “Geografia” de Strábon”. 7ª ed. Madrid: Espasa-Calpe, 1980. Antonio GARCÍA Y BELLIDO – Pequeñas invasiones y transmigraciones internas. “II Congreso Nacional de Arqueología (Madrid, 1951)”. Zaragoza, 1952. p. 231-237. Gonçalves GUIMARÃES – “Roteiro Arqueológico de Vila Nova de Gaia. Núcleo Museológico de Arqueologia”. Gaia: Câmara Municipal, 1993. ISBN 972-581-011-2. Gonçalves GUIMARÃES – Um Século de Arqueologia em Vila Nova de Gaia. “Al-madan”. Almada. II série, nº9 (Out. 2000). ISSN 0871-066X. p.163-164. Armando Coelho Ferreira da SILVA – “As Tesserae Hospitales do Castro da Senhora da Saúde ou Monte Murado (Pedroso, V.N. Gaia). Contributo para o estudo das instituições e povoamento da Hispânia Antiga”. Gaia: Gabinete de História e Arqueologia de V. N. Gaia, 1983. Armando Coelho Ferreira da SILVA – “A Cultura Castreja no Noroeste de Portugal”. Paços de Ferreira: Museu Arqueológico da Citânia de Sanfins, 1986. p. 310-314.




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