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Civitas romana Abelterium (Alter do Chão)

A fundação de Alter do Chão é atribuída aos romanos no ano de 204 a.C., contudo, existem historiadores que colocam a hipótese desta ser de origem celta ou até mesmo do povo Túrdulos.

Segundo fontes (lenda alterense), o Imperador romano Adriano, deslocou-se a Abelterium, durante a sua estada na Lusitânia e face à resistência da população local às legiões romanas o Imperador terá destruído a povoação que aqui existia por volta do ano 120 d.C., motivo pelo qual se passou a designar a via romana que conduz à Ponte romana de Vila Formosa por “Via Adriana”.

Em Abelterium passava uma importante via romana que ligava Olisipo (Lisboa) a capital da Lusitânia, Emérita (Mérida, Espanha), denominado XIV do Itinerarium Antonini Augusti, e originalmente escrito no séc. III d.C..

No entanto, as fontes são incertas e só futuras escavações a desenvolver na vila poderão contribuir para o esclarecimento de todas estas incertezas.

Escavações arqueológicas

A estação arqueológica Ferragial d’El Rei (civitas Abelterium) foi descoberta em 1954, aquando dos trabalhos de construção do Campo de Futebol Municipal.

Uma primeira escavação realizada em 1956 por João Bairrão Oleiro, com a participação de Jorge Alarcão. Durante a campanha foi descoberta um balneário romano onde se relevou, um sistema de canalizações, latrinas, algumas fornalhas e diversos hipocausto do complexo Termal.

Outras intervenções nos anos 79 a 82 por António Brazão, identificaram-se alguns compartimentos da casa romana, diversos pavimentos em opus signinum e mosaicos policromos e desenhos geométricos.

Em 2001 o arqueólogo Jorge António elaborou um projecto para a Estação Arqueológica de Ferragial d’El Rei, que só viria a ser aprovado em 2004.

A estação arqueológica desenvolveu-se na área entre o campo de futebol, uns terrenos pertencentes à coudelaria, e o pavilhão desportivo que viria a ser construído.

A campanha tornou mais visível a zona do hipocausto, onde o ar aquecido por uma fornalha de lenha circulava por baixo do chão, a do frigidário, onde corria água fria, a zona de massagens e a latrina comunitária.

Têm vindo a pôr a descoberto inúmeras estruturas romanas, espaços habitacionais, datáveis, do Séc. II ao IV d. C.

No decorrer das escavações, surgiria também a necrópole datada da antiguidade tardia, onde, a julgar pelo luxo dos objectos depositados junto a cada corpo, estariam sepultados os elementos da elite da sociedade romana da época.

O imbrex de Abelterium
A identificação do nome de Alter do Chão na época romana

 

«No decorrer dos trabalhos arqueológicos levados a efeito, no Verão de 2009, na Estação Arqueológica de Alter do Chão, foi descoberta uma telha romana (imbrex) com grafito, que identifica Alter do Chão com Abelterium.

Este singular achado foi efectuado durante a remoção do derrube do telhado do corredor, localizado atrás do triclinium da Casa da Medusa.

Felizmente logrou-se encontrar a quase totalidade dos fragmentos (sete), onde o operário de serviço de um telheiro foi anotando as contagens que ia fazendo das telhas colocadas ao sol para secar antes de irem para o forno.

Trata-se, por isso, de um documento de excepcional importância histórica, até porque houve a preocupação de explicitar que o telheiro, pertença de um Castor, se encontrava em Abelterium e o operário se chamava Vernaculus.

VIIRNA/CVLVS / FECIT / IMBRICIIS / 5 AB[II]LTIRIO / AD CASTOREM / (duo milia) /

(mille) / DCCCCL (quinquaginta et nongenti) / 10 DCCC (octingenti)

 

Vernáculo fez, em Abeltério, à do Castor, tijolos 2000, 1000, 850, 800.

Uma derradeira conclusão importa tirar, em tom de recomendação aos arqueólogos: é imprescindível uma cada vez mais cuidada atenção aos materiais cerâmicos, por mais banais que pareçam, por mais fragmentados que estejam, pois em singelo grafito pode estar a solução para uma interessante questão histórica.»

* Em Revista Portuguesa de Arqueologia. Volume 12. Número 1. 2009, pp. 197–200 “Grafito identifica Alter do Chão como Abelterium”, de Jorge  António e José D’Encarnação.(1)

 

Edifício termal

As termas de Abelterium terão obedecido a um plano de construção indissociável da política urbanística, no intuito de dar resposta as necessidades muito próprias do modus vivendi romano, um ritual imprescindível e quase diário – o costume dobanho.

Os banhos desempenharam um importante papel na vida social e politica, enquanto espaço de relacionamento e de convivência.

As obras de ampliação da área aquecida do edifício termal poderão estar relacionadas com o aumento da população de Abelterium e o consequente acréscimo de utilizadores, ou com a construção de uma nova ala de banhos, a fim de permitir a separação dos sexos.

Nas Termas romanas é possível compreender a vivencia e utilização que os romanos lhe faziam, imaginando o seu percurso de utilização:

Natatio – Piscina ao ar livre

Apodyterium – Vestiário localiza-se próximo da entrada das termas e estaria equipado com bancos corridos e nichos ou armários de parede para guardar os pertences dos utilizadores.

Frigidarium – Depois de se despirem os utilizadores dirigiam-se ao frigidarium, sala de aguas frias, onde disponham de uma ou duas piscinas.

Tepidarium – Os utilizadores seguiem depois para a sala de aguas tépidas, adaptando-se gradualmente à temperatura, evitando choques térmicos bruscos.

Caldarium e sudatarium – Quando aqui chegavam as salas de aguas quentes e sauna finalizava o processo de banhos nas termas.

Natatio – Piscina ao ar livre

O sistema de aquecimento das termas tinha origem nas fornalhas (praefurnia). O ar quente aqui produzido circulava pelo Hipocausto, através dos arcos e pelas paredes duplas das salas. Sobre as fornalhas eram normalmente colocadas caldeiras a partir das quais a água quente era conduzida a piscina do Caldarium através de canos de chumbo.

Os complexos termais possuíam latrinas, em Abelterium era um pequeno edifício, de uso colectivo, equipado com um banco de alvenaria, adossado a duas das paredes e sobre o qual assentavam placas, eventualmente de mármore com orifícios ovóides. Sob este banco corria permanente mente agua. Noutra parede tinha uma pequena fonte, utilizada para higiene pessoal.

A Casa da «Medusa»

Casa romana de grandes dimensões e de grande fausto localizada a nordeste do edifício termal.

O proprietário seria uma figura ilustre da cidade romana, uma pessoa de inquestionável riqueza, cultura e gosto requintado, que ostensivamente decorou a sua habitação, transformando-a numa residência de luxo, com pinturas murais e pavimentos em mosaico e diversas esculturas, de enorme qualidade técnica e artística.

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Escultura Romana

No início das escavações foi encontrada uma cabeça de uma estátua de mármore representando uma jovem rapariga. O penteado, em longas tranças puxadas para trás e apanhadas em rabo-de-cavalo, denuncia a moda da sua época.

A presença da escultura era sinal da existência de uma casa muito rica, uma domus, já tinha sido descoberta a base de uma outra estátua, de Apolo, perto de uma zona das termas romanas.

O mosaico

É um mosaico figurativo, de pasta vítrea em tons de azul, verde e bordeaux, onde surge a figura da Medusa como figura central.

O mosaico é uma representação da penúltima cena do Canto XII de Eneida, de Virgílio.

A Casa recebeu o nome de «Casa da Medusa», por esta figura surgir no escudo segurado por Eneias.

Esta peça arqueológica, é datável do século IV d.C.

Localização:

Alter do Chão - No Centro Interpretativo adquire-se o bilhete de ingresso que proporciona visita guiada à Estação Arqueológica, Museu Monográfico e visualização de pequeno documentário sobre os inícios da cidade.

 

Para saber mais consulte:
(1) http://www.igespar.pt/media/uploads/revistaportuguesadearqueologia/12_1/12_1artigos/197_200.pdf
(2)   https://www.facebook.com/people/Arqueologia-Alter-Do-Ch%C3%A3o/100001342941971
créditos de fotos: Ricardo Cabrita; Centro Interpretativo/Arqueologia Alter do Chão; José Rodrigues.

 

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Raul Losada

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