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Castro de Alvarelhos (Alvarelhos, Trofa)

O Castro de Alvarelhos ou São Marçal localiza-se na freguesia portuguesa de Alvarelhos, na serra de Santa Eufémia, concelho de Trofa. Está classificado pelo IGESPAR como Monumento Nacional desde 1910.

Localizado num contraforte da Serra de S.ta Eufémia, sobranceiro ao Vale da Ribeira da Aldeia, este povoado fortificado foi erguido durante o Bronze Final, tendo sido registadas ocupações reportáveis à Idade do Ferro, à época da presença romana, bem como à Idade Média.

Ocupação da Idade do Ferro

Embora, actualmente, não seja fácil definir a área exacta da ocupação da Idade do Ferro, pelo facto do desenvolvimento do povoado durante a época romana ter alterado profundamente essa realidade pré-existente, pensa-se que, grosso modo, ele ocuparia uma vasta extensão de cerca de oitocentos mil metros quadrados.

Este grande povoado foi inicialmente investigado em 1899 por José Fortes, no quadro do projecto de estudos da Proto–História do Noroeste, desenvolvido pela equipa do Porto a que pertencia aquela investigador —conhecido como grupo da Portugália, nome da revista que publicaram—, a que se seguiu uma publicação de C. A. Ferreira de Almeida em 1978 e de Joaquim Torres em 1979. Mais tarde houve intervenções no terreno, levadas a efeito em 1984 e 1986, no âmbito de situações de emergência. Em 1994, o local foi escavado no contexto de um projecto de investigação da responsabilidade de Álvaro de Brito Moreira. Nos últimos anos efectuaram –se campanhas de registo e limpeza promovidas pela Câmara Municipal da Trofa.

A estrutura do povoado ainda não se encontra bem definida. Ocupava uma área considerável atingindo, talvez superior a oito hectares, no triângulo formado por S. Marçal, Sobre Sá e Monte Grande, com estruturas localizadas nas plataformas intermédias, onde se dispõem vários taludes. O castro teria três linhas de muralha detectadas, sendo provável a existência de mais duas. A análise da superfície total do sítio e sua delimitação têm sido dificultadas pela pressão urbanística, cobertura vegetal densa e diversos equipamentos industriais.

Ocupação Romana

Durante o período de ocupação romana, o Castro de Alvarelhos adquiriu uma dimensão considerável, traços urbanísticos muito bem definidos e acima de tudo, um contexto de espaço público. Testemunhos arqueológicos atestam a prolongada ocupação, pela sua excelente localização, pois trata-se de um espaço de qualidade agrícola e bastante próximo da costa marítima.

Grande parte das construções escavadas em Alvarelhos, encontram-se datadas entre o séc. I e II. Com a presença dos romanos neste local, a população foi modificando alguns dos seus hábitos nomeadamente os alimentares. Começaram a utilizar o mel, o azeite, o sal e o vinho e centrar-se na cerâmica tipicamente romana, nos conceitos de direito de propriedade e na economia monetária.

Trata-se de um conjunto interessante de vestígios de ocupação romana, estes que encontramos em Alvarelhos, onde verificamos a existência de um edifício de planta rectangular com apenas uma só porta de acesso, formando uma praça, muito semelhante a um mercado. Junto a este local, desenvolveu-se uma área de estruturas habitacionais, surgindo na zona noroeste da praça, um edifício de dimensões consideráveis. Foi aqui encontrado uma casa com um espaço de forja e um número elevado de vestígios de escórias de fundição.

Registado do séc. III e primeira metade do IV, está um segundo plano de obras de remodelação profunda, contudo de menor qualidade construtiva, no que respeita à arquitectura e engenharia. Pensa-se que a fase de abandono e até de destruição, tenha ocorrido pelo séc. V, altura das invasões suevas.

Zona Visitável

A zona de visita mais expressiva corresponde a uma plataforma intermédia, intervencionada nos projectos recentes, onde se identificaram, além de estruturas circulares castrejas, claros indícios arquitectónicos de romanização, nomeadamente casas de tipo domus, sobrepostas às construções da Idade do Ferro, e um provável edifício termal.

A localização deste povoado junto da importante via romana Bracara/Cale, aliada à grande expansão urbana que aparenta ter ocorrido no período romano, indica estarmos perante um importante aglomerado secundário, não só pelas estruturas já exumadas, como também por diversos achados, entre os quais tesouros monetários e um notável fundo de uma pátera — vaso ritual em prata— com uma representação de Marte e inscrição com letras gravadas a ouro.

No castro encontrou-se em 1971 nove bolas de prata, duas gravadas com a palavra “Caesar” pesando 3220gr. e uma pedra rectangular (possivelmente um marcador) numa face gravado com o nome “Caesar” e na outra o numeral “XII”.

Poderiam estas bolas ser utilizadas para fabricar moedas com vista ao pagamento da Legião?

O povoado romanizado e possivelmente utilizado pela Legião durante a conquista e pacificação do território.

Os tesouros monetários encontrados no castro datam de 206aC. até 27 aC.

A reorganização do espaço habitado, na época romana, esconde ou terá apagado os vestígios mais nítidos da Idade do Ferro, cuja extensão está comprovada pela descoberta de casas circulares no lugar de Sobre Sá.

Contudo, o povoamento do local foi muito mais amplo, ocorrendo materiais datados do Bronze Final e vestígios de ocupação que se estendem até à Idade Média, sendo referido em fontes documentais do século X, conservando –se as ruínas de uma capela medieval.

Apesar da sua altitude não ser muito elevada, 218 metros, este povoado dispunha de um invejável posicionamento estratégico, similar nalguns aspectos à Cividade de Bagunte, embora ligeiramente mais recuado para o interior, a meia distância entre os rios Ave e Leça, que desagua a norte da cidade do Porto. Aliás, no local onde se situa o castro corre o limite entre as duas bacias. Enquanto Bagunte controlava a via fluvial, Alvarelhos vigiava um corredor terrestre de circulação que conduzia em diagonal da foz do rio Douro para as bacias hidrográficas do Ave e do Cávado, para uma área de grande densidade de grandes castros. Este corredor foi aproveitado em sucessivas épocas. Na época romana passava, logo a sul do povoado, a via oficial entre Cale e Bracara, assinalada por miliários. Deste conjunto resultam ainda alguns marcos miliários, que podem facilmente ser visitados na Casa da Cultura da Trofa (CCT) e na Quinta do Painço. Em tempos recentes foi construída, no mesmo corredor, a EN Braga – Porto.

Castro de Alvarelhos possível Civitas Avobriga (?)

Avobriga ou Abobriga era uma cidade relatada por Plínio perto da Foz do Rio Ave, cuja localização ainda é desconhecida.

Uma inscrição distante em Aqua Flaviae – Padrão dos povos (Aobrigenses CIL II 2477) menciona o nome de dez cividades, entre as quais a dos Aobrigenses, a transformação de [avo] para [ao] deve-se a possivelmente a diferenças linguísticas. Existem também inscrições em Fermedo e Tarragona (Avobrigensis CIL II, 4247)

Dados epigráficos documentam a existência de uma administração municipal, a adaptação do regime municipal nas organizações territorial indígena constitui a forma mais generalizada de aplicação do Edito de latinidade no Noroeste peninsular.

A Cividade de Bagunte é outra das possibilidades avançadas para a localização da civitas dos Avobrigenses e que se encontra mais próxima da foz do Ave e a controla visualmente, ao invés do Castro de Alvarelhos, que se localiza num corredor natural de circulação entre o Porto e Braga, justamente por onde passava a via XVI. As  dúvidas em identificar este local, se realmente se localiza na foz do Ave, com os “Aobrigenses” ou “Avobrigenses” mencionados no Padrão dos Povos de Aquae Flaviae, que, a julgar pela localização das outras civitates mencionadas, estariam localizadas na “área de influência” de Aquae Flaviae…

INSCRIÇÕES de Avobriga

CIL II 4277 – IMP (eratori) CAES (ari) VE [sp (asiano) AVG (usto) PONT (ifici)] / MAX (imo) TRIB (unicia) POT (estate) [X IMP (eratori) XX P (atri) P (atriae) CO (n) S (uli) IX] / IMP (eratori) VESP (asiano) CAES (ari) AV [g (usti) F (ilio) PON (ifici) TRIB (unicia) / POT (estate)] VIII IMP (eratori) XIIII CO (n) S [s (uli) VII] / G (aio) CALPETANO RA [ntio Quirinali] / VAL (erio) FESTO LEG (ato) A [ug (usti) PR (o) PR (aetore)] / D (ecimo) CORNELIO MA [eciano Leg (ato) AUG (usti)] / L (ucio) ARRUNTIO MAX [imo Proc (uratori) AUG (usti)] / LEG (ioni) º VII GEM (inae) [Fel (ici)] / CIVITATES [X] AQUIFLAVIEN [ses Aobrigenses] / BIBALI COEL [erni Equaesi] / INTERAMIC [i Limici Aebisoci] / QUARQUE [r] NI TA [magani]

***

CIL II 4247 – L(ucio) Sulpicio Q(uinti) f(ilio) Gal(eria) / Nigro Gibbiano / Avobrigensi / omnibus in re p(ublica) sua / honorib(us) functo / flam(ini) Romae divor(um) / et Aug(ustorum) p(rovinciae) H(ispaniae) c(iterioris) / p(rovincia) H(ispania) c(iterior)

Segundo Emílio Hubner, o Castro de Alvarelhos poderia corresponder a Aviobriga/Avobriga, junto ao rio Ave…

Localização

Partindo da Trofa deve tomar –se a Estrada Nacional 14 em direcção à Maia. Passados 6 km (cerca de 8 minutos), na freguesia de Muro, deve cortar –se à direita, para a Estrada Nacional 318, na direcção de Vila do Conde. Passados 2’3 km (cerca de 3 minutos), deve virar–se de novo à direita para um caminho de terra que se dirige para o lugar de Sobre Sá. Atinge–se a estação arqueológica passados 500 metros (cerca de 2 minutos), do lado direito do caminho.

Bibliografia

“Circulação Monetária do Noroeste de Hispânia até 192″
Porto, 1987 – CENTENO, Rui Manuel Sobral
“A estação archeologica de Alvarelhos”, Archaeologia Portuguesa”
Porto, 1899 – FORTES, José T. Ribeiro
“Tesouro monetário do castro de Alvarelhos. Estudo numismático – seriação cronológica e histórica”
Boletim Cultural, Santo Tirso – TORRES, Joaquim
“Elementos  para a Carta Arqueológica de Santo Tirso. A estação arqueológica de Alvarelhos”, Santo Tirso Arqueológico, Santo Tirso, 1992 – MOREIRA, Álvaro Brito
“Castelogia Medieval de Entre-Douro-e-Minho. Desde as origens a 1220″
ALMEIDA, Carlos Alberto F. de
Info:http://www.ca.avedigital.pt

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Raul Losada

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