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Templo de São Gião – Nazaré

Em 1597, Frei Bernardo de Brito descrevia a Igreja como estando em bom estado de conservação. O seu orago, S. Gião era particularmente venerado na época visigótica, sendo da especial predilecção desta povoação.

No século XVIII estaria já abandonada, como o comprovam as memórias paroquiais da freguesia de Famalicão, datadas de 1758:

«Junto ás Cazas da dita Quinta está fundada huã Irmida consagrada em louvor de S. Gião, e como esta totalmente se acha demolida e arroinada por sua immemoravel antiguidade, mandou um Dr. Vizitador em Capitulos de vizita se tresladasse o dito Santo pª a Igreja Parochial desta Freguezia, por achar indecente a existencia do dito Santo em Lugar tão improprio, com tão pouca veneração e culto. E por isso se acha agora nesta dª Igreja no Altar do Divino Espirito Santo, aonde o povo o venera, e louva com devoção

Templo Romano (Neptuno)

Frei Bernardo de Brito referia em 1597 a existência de várias lápides romanas, nomeadamente uma, de cuja veracidade se duvida actualmente. Na sua obra “Monarquia Lusitana” refere ter descoberto várias inscrições romanas no local, que evidenciavam ter existido ali um templo dedicado a Neptuno por Decio Junio Bruto, após a vitória que as suas tropas tinham obtido contra os habitantes de Eurobricium. «ALÃO (2001:148)»

No cumprimento de um voto pela vitória alcançada, os romanos teriam levantado no local um templo ou altar dos deuses.

A própria evocação do templo – S. Gião / Julião / João – remete para a permanência de cultos solsticiais (ou solares), e para a permanência transecular da identificação de uma divindade única com o “astro-rei”, passível de ser interpretada, na mesma zona e num regime de assombrosa continuidade, através de outros vestígios como o célebre mosaico tardo-romano ou paleocristão de Cós (com a figura do Deus mitraico no seu centro).

«Mosaico de Cós»

Da época romana têm sido encontrados na quinta de S. Gião vários objectos utilizados naqueles tempos e que estão hoje expostos no Museu Etnográfico e Arqueológico Dr. Joaquim Manso na Nazaré.

Busto de dama romana, em miniatura, com cabelo rematado atrás e diadema na cabeça; feições simples; peito saliente com decoração. Apresenta saliência inferior para fixação.

Enfeite de capacete romano, em bronze, representando cabeça de cavalo.

Anel de prata lisa, de secção circular, com enfeites de pequenas “pérolas” de prata de vários diâmetros na parte do fecho ou de ligação da argola.

Sarcófago Romano – Forma rectangular, liso sem decoração, apresentando um pequeno orifício (testemunho de uma posterior reutilização) e algum restauro em cimento. Internamente, observam-se diferenças nas suas dimensões, pelo que numa das extremidades (a cabeceira) apresenta-se mais larga que na extremidade oposta oscilando entre os 44 cm e os 38,5 cm respectivamente.

Chave romana, simples, cuja parte superior (pega) termina em forma de arco.

Insígnia tardo-romana representando uma haste com argola na base e uma pomba no topo.

Inscrições funerárias CIL 356 e 358 – Jorge Alarcão no seu livro «Roman Portugal»  Vol. II (p.113 5/30) apresenta duas inscrições funerárias provenientes de São Gião – CIL 356 e 358 por indicação de Garcia, 1962 – p.239. Não temos de momento os textos epigráficos.

Presença Visigótica

Os Visigodos teriam, posteriormente, desmantelado o templo romano. Sobre ele, ou bastante perto, construíram a Igreja de feição cristã, satisfazendo o plano arquitectónico as directrizes do primeiro Concílio de Braga e do quarto Concílio de Toledo, que determinavam que os sacerdotes deveriam estar isolados dos crentes, acedendo ao santuário através da área da nave transversal, enquanto os fiéis se disporiam na nave central – tal como referem os estudos de Helmut Schlunk.

A partir do século VIII, os árabes instalaram-se naquele território.

Pedra de altar Paleocristã

Datação: 656 d.C. – 665 d.C.

Apresenta em todas as faces decoração em forma de arcos de volta inteira. Na parte superior, de cada lado, dois rolos de pedra.

Pedra de altar abrigada no interior da Igreja de S. Gião, Nazaré, removida para o Museu em 1987.

Localização

A Igreja de São Gião é um templo, classificado como visigótico por alguns autores e como de características asturianas por outros, situado na Quinta de São Gião, na freguesia de Famalicão, a 5 km a sul da Nazaré, em Portugal e a 500 m do mar, junto às dunas da zona costeira.

Foi descoberto por Eduíno Borges Garcia, em 1961 e classificado como Monumento Nacional pelo Decreto-Lei n.º1/86, de 3 de Janeiro. É considerado um dos templos cristãos mais antigos do território português e na Península Ibérica.

Trata-se de um pequeno templo monástico, de planta rectangular, com uma só nave de 6,6 m por 3,9 m, sem janelas. Sobre a porta de entrada teria existido uma tribuna de madeira. O tecto é em madeira com vigamento à vista.

O cruzeiro é separado da nave por uma iconóstase, constituída por uma parede com uma porta central de arco ultrapassado e duas janelas laterais semelhantes. Este elemento isola o altar e o coro, ou seja, a parte do santuário, semelhante a um pequeno transepto, reservada ao clero, da nave central, reservada aos fiéis.

A ermida tem uma estrutura particularmente frágil, o que torna a sua descoberta tardia um acontecimento deveras espantoso. A sua preservação deve-se à sua permanente utilização. O seu aspecto exterior é bastante rústico, principalmente devido ao facto de ter um anexo simples (talvez do século XV).

A nave transversal tem, de cada lado, uma arcada dupla em ferradura assente numa coluna com capitel coríntio. As arcadas fariam a comunicação entre a nave transversal e uma zona reservada que faria ligação ao presbitério. Este, actualmente destruído, possuía uma planta rectangular e uma cobertura em abóbada ou de canhão, ou de meia-cúpula.

A nave era ladeada por duas ou mais divisões que a acompanhariam longitudinalmente e a que se teria acesso por portas simples.

A decoração de características singulares está esculpida nas impostas, nos capitéis e nos ábacos: folhas de acanto; SS encadeados; nervuras oblíquas em dentes de serra; quadrifólios e pentafólios; losangos arqueados inscritos em círculos; arquinhos ultrapassados; espinhas de peixe; palmas e palmetas, estas últimas de inspiração bizantina.

Quando foi descoberta estabeleceu-se uma certa unanimidade científica quanto à sua classificação como monumento-tipo representativo da liturgia da época visigótica (como o fez Helmut Schlunk em 1971). De acordo com esta teoria, a igreja teve as suas origens no século VII, no local antes ocupado por um templo romano dedicado a Neptuno.

Esta unanimidade tem sido posta em causa após estudos recentes e com os trabalhos de escavação e de Arqueologia da Arquitectura. Em resultado desses estudos, a igreja é considerada como um dos poucos exemplares de templos asturianos conhecidos no nosso país, o que a dataria numa época posterior.

Um templo esquecido… Em risco de derrocada

Este monumento da responsabilidade do IGESPAR está fechado e abandonado…

Em 2000 deu-se início a um projecto de reabilitação do monumento, consistindo, numa primeira fase, no escoramento do edifício e na aplicação de uma cobertura de protecção.

Durante o ano de 2006 deveriam ter-se iniciado os trabalhos de restauro da Igreja, estando a sua abertura ao público prevista até ao final de 2007. A promessa não passou do papel e o que resta deste monumento, ali continua, protegido, inacessível e aparentemente esquecido.

Em Novembro de 2010 o chefe de gabinete da ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, garante que a tutela,

“Pretende implementar, através da Direcção Regional de Cultura de Lisboa e Vale do Tejo, um programa de intervenção para o tratamento deste caso singular do panorama cultural português”… “é intenção daquela Direcção Regional ter concluída a abordagem preliminar da futura intervenção até ao final do primeiro trimestre de 2011″.

 

 

 

 

Encontra-se em eminente risco de derrocada, uma vez que a cobertura em chapa, não deixa o edifício receber circulação de ar. As paredes interiores estão completamente cobertas de muco, o grau de humidade é bastante grande, e o escoramento que existe está neste momento a “empurrar” as paredes exteriores, fragilizadas pela grande quantidade de “muco”.

Desde 1986 classificado como Monumento Nacional (?). Esta classificação, não é mais do que algumas letras num papel. A ruína continua…

Este monumento da responsabilidade do IGESPAR está fechado e abandonado.

Localização: Quinta de São Gião, Nazaré -

GPS
39°33’46.72″N
9° 5’22.12″W
   

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3 Comments

  1. Rui Franco
    2011/09/09 at 21:34

    Estive lá no ano passado após uma indicação casual no posto de turismo da Nazaré. A estrada de acesso é um tormento para máquina e condutor. Uma vez lá chegados, há que entrar numa zona que não se percebe bem se é particular ou não e, depois, ir a corta mato até chegar perto da "ruína". Pareceu-me ter mais superfície à vista, então (relativamente à fotografia aqui mostrada).

    Um crime, o abandono daquilo…


  2. Carlos Fidalgo
    2011/09/18 at 09:57

    Em primeiro lugar obrigado por terem colocado nesta lista de monumentos de elevado valor histórico/arquitectónio e arqueológico, apesar de S. Gião estar, completamente, abandonada e num estado de ruina "cavalgante".

    Sobre S. Gião, caso interesse, pode interessar o meu trabalho que contém o produto de uma investigação de 4 anos a S. Gião, mas serão precisos mais 10 e trabalhos de arqueologia no sub-solo para conseguirmos aferir a sua temporalidade.

    http://repositorioaberto.univ-ab.pt/handle/10400….

    Cordialmente

    Carlos Fidalgo


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