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Myrtilis Iulia (Mértola)

A Romanização de Mértola

Povoação antiga, Mértola é de origem pré-romana e um importante porto fluvial do tráfego mediterrânico para comerciantes fenícios, Gregos, Cartagineses.

Com o domínio romano na Lusitânia, a povoação foi baptizada de Myrtilis Iulia ou Iulia Myrtilis.

«Plínio cita Myrtilis entre os oppida veteris Latii (Historia Natural, 4, 117). Esta referência, acrescida da referência de Ptolomeu (2, 5, 5) à cidade enquanto Ιουλια Μυρτιλις, levou a que se considerasse este, um município fundado por Júlio César (Alarcão, 1985, p. 101-102), que também terá elevado a cidade a município com Latium Vetus, na sequência do final das Guerras Civis (Alarcão, 1985, p. 104).

A sua importância estratégica no tempo das guerras de César contra os filhos de Pompeu parece confirmar-se com a emissão em Myrtilis de dupôndios por L. Appuleius Decianus em 45 a.C., ano da vitória de César em Munda (Espanha).

Esta posição tem sido, contudo, alvo de alguma controvérsia, defendendo-se em contrapartida que o ius Latii tenha sido outorgado por Octaviano/Augusto antes de 12 a.C., e que a cidade tenha adquirido o estatuto de município numa data posterior, que, a julgar pelos testemunhos numismáticos dos oppida veteris Latii de Plínio, deverá ter sido entre 12 a.C. e 37 d.C. (Faria, 1995a, p. 95, 1999, p. 37).

As ancestrais relações de Myrtilis com o Mediterrâneo, e sua boa acessibilidade, terão facilitado uma precoce romanização, possivelmente logo nos inícios do século II a.C., aquando das Guerras Lusitanas (Fabião, 1987, p. 147). »

Numismática de Myrtilis Iluia e Interpretação

Nas subsequentes guerras pelo poder em Roma, que se travaram na Península ao longo de todo o século I a.C., Mértola continuou a revelar uma importância estratégica (Alarcão, 1985, p. 101).

Exemplo disso é a cunhagem realizada na cidade pelo questor L. Apulleius Decianus. Trata-se de uma fruste cunhagem que apresenta no anverso um sável, juntamente com a legenda toponímica abreviada referente a MURTILI, e, no reverso, o nome do magistrado igualmente de forma abreviada, juntamente com a representação de uma espiga. Este tipo surge em duas ordens de grandeza distintas e deverá datar do período da Guerras Sertorianas (Faria, 1995b, p. 148-149).

Conhecem-se ainda duas outras emissões, uma apresentando um golfinho sobre crescente no anverso e uma espiga sobre o topónimo,

enquanto na outra se figurou no anverso uma cabeça masculina, possivelmente representando Júpiter, e na outra face uma águia sobre a legenda toponímica. Pela sua tipologia, esta última cunhagem deverá datar de entre 70 e 40 a.C. (Faria, 1995b, p. 149).

Documentando a participação da cidade num contexto de guerra e de instabilidade, estão dois tesouros monetários datados de finais do século II, inícios do I. Trata-se de dois conjuntos de denários republicanos identificados nas proximidades de Mértola, (Viana, 1955, p. 159-163).

O primeiro terá sido achado em 1634 numa panela de prata, nas margens de um rio, junto de Mértola. Para além disto, apenas se sabe que este tesouro conteria mais de 8000 denários, incluindo um de Numerius Fabius Pictor, datado de 126 a.C. (Hipólito, 1960-1961, p. 88-89).

«Denario da familia Fabia, cunhado por Numerius Fabius Pictor»
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Mais recentemente, em 1941, foi identificado um segundo tesouro republicano, nas margens do Guadiana, junto a Mértola. Este tesouro era composto por mais de 800 denários tendo 666 deles sido adquiridos pelo Museu de Beja (Hipólito, 1960-1961, p. 89). Do total das moedas, apenas 53, adquiridas por Manuel Heleno e hoje depositados no Museu Nacional de Arqueologia, foram devidamente estudadas (Faria, 1991-1992, p. 84-86).

Esta análise fez datar o tesouro um pouco antes de 100 a.C. (Faria, 1991-1992, p. 84), embora uma cronologia mais recente de Mattingly possa fazê-lo avançar até cerca de 98 a.C., (Volk, 1999, table B).

«Tesouro da Herdade Nova, 1958  -
Denário republicano de César - 48 a.C. – 47 a.C»
*
 

Em Abril de 1958, foi descoberto, dentro de um vaso, um tesouro de moedas em número apróximado de 1500 moedas, na Herdade Nova ou Herdade da Gralheira, na freguesia de S. Joâo dos Caldeireiros, concelho de Mértola. As moedas dispersaram-se, na sua maioria pelos habitantes de S. João dos Caldeireiros. Conservaram-se três núcleos que ficaram à guarda de diversas entidades destinadas a serem adquiridas por Museus locais (Beja). Foram adquiridas para este Museu um núcleo de 521 moedas. Trata-se na sua maioria de denários do séc. I a.C.

No entanto, como em todos os tesouros monetários, estas datas apenas nos fornecem um terminus post quem para a sua ocultação.

As razões exactas para essa ocultação e posterior perda mantém-se desconhecidas.

A interpretação dada por alguns investigadores aos tesouros monetários romanos de época republicana encontrados na Vila e nos seus arredores aponta para uma forte importância da região de Mértola durante o processo de conquista romana e a sua utilização como base de entrada do exercito romano (1) na região (Faria, 1995, p. 148-149).

Com a pacificação da região e o seu carácter comercial e portuário a constituição da população de Mértola seria feita por muitos libertis e imigrantes de origem itálica e africana, a julgar pelos estudos da numerosa epigrafia conservada.

O grande tráfego comercial da região e do seu porto(5) no rio Guadiana por onde se escoavam sobretudo produtos agrícolas e minerais de toda uma vasta zona, destacando-se o cobre, prata e ouro das minas de São Domingos, que de Myrtilis partia em navegação até à foz do rio e depois por todo Mediterrâneo.

Edifícios de grande monumentalidade e inúmeros achados arqueológicos permitem que qualquer visitante identifique a presença dos romanos na Vila de Mértola ou na Mina de S. Domingos.

Apesar da concentração de vestígios na Vila de Mértola (Criptopórtico, Torre Couraça(5), casa romana e vias romanas), podem também encontrar-se vestígios de menor dimensão em todo o Concelho.

Com a adopção do Cristianismo pelos romanos, os cidadãos de Mértola acompanharam os sinais de mudança, facto testemunhado pelos vestígios arqueológicos representativos de locais de culto e enterramento na cidade basílicas Paleocristãs do Rossio do Carmo (2) e da Alcáçova onde se observa um baptistério octogonal.

A Importância de Mértola manteve-se até séc. V-IV d.C.

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Museus de Mértola

Mértola é actualmente uma Cidade museu com vários núcleos de elevado interesse histórico, Situada no Baixo Alentejo, distrito de Beja, junto ao rio Guadiana.

Núcleo Romano

Sob o edifício dos Paços do Concelho encontra-se instalado o núcleo romano do Museu. Antecedendo obras no subsolo, uma intervenção arqueológica pôs a descoberto as ruínas de uma habitação romana.

A musealização deste sítio, permitiu instalar um conjunto de fragmentos arquitectónicos sugerindo formas e funções da época em que a casa foi habitada.

Inscrição Honorífica ao Imperador Marco Aurélio

[IMP(eratori) •] CAESARI [M(arco) • A[VRE]L[I]O • AN[TONINO • AVGVSTO ] / [ARME]NIACO • PONTI[F(ici)• MAX(imo) • TR(ibunicia) • P(otestate) •XVIII] / [CO(n)S(uli) • III •] DIVI • ANTONINI • [AVG(usti) • F(ilio) • DIVI • HADRIANI] / [NEP(oti) • DIV]I • TRAIANI • PAR[THICI • PRONEP(oti)] / [DIVI • NE]RVAE • ABNEP(oti) […?] / EX • D(ecreto) • D(ecurionum) • M(unicip)ES • M(unicipii) • MYR[TILENSI]S / PER • C(aium) • IVLIVM • MARINVM / C(aium) • MARCIVM • OPTATVM • IIVIR(os) (duunviros)

São expostos objectos encontrados no próprio local, alguns outros associados ao mesmo contexto cultural e, finalmente, a reprodução de vidros e esculturas dessa época que, desde os finais do século XIX, foram depositadas no Museu Nacional de Arqueologia.

Fórum e Criptopórtico de Myrtilis

«Foi no decorrer das primeiras escavações do Campo Arqueológico de Mértola (3) que se detectou uma das mais importantes estruturas da cidade, o criptopórtico. Trata-se de uma estrutura composta por uma galeria abobadada com cerca de 30 metros de comprimento e 6 de altura, e por imponentes muros de xisto e grandes blocos de granito, que serviu para combater o declive acentuado do cerro onde se implantou a cidade, e criar uma plataforma onde se terá instalado o forum da cidade (Torres e Oliveira, 1987, p. 618).

Cabeça-retrato do imperador Octávio Augusto – Fórum de Myrtilis

Octavio Augusto foi fundador de Mérida (Emerita Augusta),
a capital da Lusitânia, e a figura tutelar da Província – MNA.
 
 
 Esteve durante longo tempo colocada sobre uma estátua togada, a que não pertencia. Provém de Myrtilis onde originalmente se ergueria, por certo no Fórum da cidade. A peça apresenta diferenças de proporções ou de módulo entre a face esguia e o cabelo volumoso, bem como o pescoço largo, que levam a supor que o imperador originalmente retratado tivesse sido Calígula, cuja “damnatio memoriae” (condenação ao esquecimento) teria provocado a oportuna reelaboração da peça segundo os cânones iconográficos característicos do seu antecessor. (Segundo ficha de Catálogo de Escultura Romana do MNA, da autoria de José Luís de Matos).
 

A praça, com uma colunata em toda a volta, albergaria os principais edifícios da cidade. Desses edifícios, conhecem-se as estruturas de uma basílica, assim como um complexo termal, por intermédio de uma piscina revestida a mármore, que posteriormente terá sido adaptada ao culto cristão (Macías, 1996, p. 50).

Certamente que no fórum da cidade se localizaria também o templo. Desconhecem-se as suas estruturas, no entanto, uma cabeça colossal da deusa oriental Cíbele faz pensar que esse templo lhe fosse dedicado (Alarcão, 1990, p. 475).

«Cabeça feminina ornamentada de “corona muralis” representando uma muralha de três andares com duas portas assente sobre os cabelos.  Esta cabeça pertenceria a uma estátua marmórea de grande porte que se ergueria num templo ou num espaço público e monumental da cidade romana de Myrtilis, muito possivelmente no respectivo Forum. Comummente é identificada com Cibele, mas o culto da deusa frígia só mais tardiamente se expande de forma explícita na Lusitânia. Parece-nos, pois, preferível classificá-la como a personificação grega da Fortuna, figurando não apenas como deidade tutelar dos indivíduos mas, conforme se pode deduzir das características iconográficas, também de uma divindade protectora ou fundadora de uma cidade ou da representação figurada da própria cidade de Myrtilis onde foi encontrada.(MNA)»

*

O criptopórtico foi posteriormente aproveitado como cisterna  e a plataforma criada pelo criptopórtico para a construção de um bairro almóada, e posterior necrópole dos séculos XIV a XVI, o que levou à destruição de vestígios precedentes.

A julgar pela construção de toda esta estrutura, a sua edificação ter-se-á dado em meados do século III (Macías, 1996, p. 52). Esta cronologia, que assenta na reutilização de materiais dos séculos I e II na construção do criptopórtico, levanta-nos uma questão. Onde estaria o fórum de Myrtilis antes do século III, época em que os vestígios materiais conhecidos apontam para um florescimento da cidade?

 
«A estátua serviu de suporte para as “cabeças retrato” de imperadores ou altos funcionários imperiais, exposta presumivelmente num contexto de culto ou homenagem pública à autoridade romana. (Segundo ficha do Catálogo de Escultura Romana do MNA, da autoria de José Luis de Matos)»
 

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Uma hipótese possível é a de que esta data corresponderia apenas a uma reconstrução do fórum preexistente, outra hipótese surge do facto do conjunto impressionante de oito ou dez estátuas descobertas por André de Resende ter sido achado, segundo informação de Frei Amador Arraiz (1945, p. 289), junto à Misericórdia, um local bem afastado do criptopórtico, e junto à porta do rio. Tal conjunto de estátuas só poderia estar num fórum, o que, visto as estátuas hoje ainda conhecidas datarem dos séculos I e II (Souza, 1990, p. 9-12), nos leva a supor que pudesse existir um fórum anterior nessa zona da cidade, bem próxima do porto fluvial, verdadeiro centro económico da cidade »

Estas incertezas a propósito do urbanismo da cidade deixam vasto campo para o estudo e expectativa quanto a novos dados.

Baptistério do século V/VI

Na Antiguidade Tardia, foram levantadas sobre o criptopórtico luxuosas construções religiosas; entre elas, um baptistério do século V/VI, na altura

revestido de mármores e rodeado por um belo conjunto de mosaicos policromos, de que restam alguns fragmentos significativos, que apresentam uma rica figuração de animais e cenas de caça.

Vias Romanas

No Itinerário XXII de Antonino esta rota é chamada de ‘Per compendium Pace’, ou seja pelo caminho mais curto, indicando um total de 76 milhas até Beja, cerca de 101 Km, o que corresponde à actual distância entre Castro Marim e Beja, distinguindo assim do Itinerário XXI. A ligação entre Castro Marim e Mértola, a única estação referida no itinerário, deveria ser efectuada por via fluvial, subindo o rio Guadiana, mas não se pode excluir uma alternativa terrestre pela margem direita do rio, apesar do terreno ser aqui muito acidentado e da ausência de provas consistentes da passagem dessa via.

Os vestígios da estrada romana de ligação ás minas de São Domingos ainda hoje são visíveis. A calçada parte do Porto de Mértola no Guadiana, junto aos celeiros da EPAC, e segue durante 2,2 km pela chamada Estrada Velha até Casa Branca, reaparecendo depois no sopé do Cerro do Calcolítico e mais à frente no Monte Alto)

Campo Arqueológico de Mértola

Após a fundação do Campo Arqueológico de Mértola, em finais dos anos 70, a vila assistiu ao início de um valioso trabalho de recuperação e promoção do seu património. Apesar de privilegiar a arqueologia islâmica, este trabalho tem também trazido à luz do dia alguns dados importantes acerca da estrutura da cidade romana

Para além dos vestígios evidentes, e já bem estudados e divulgados, existentes na Vila de Mértola, por todo o Concelho estão devidamente identificadas e documentadas centenas de estações arqueológicas que atestam a importância deste território ao longo dos tempos e potenciam projectos de investigação nas mais diversas áreas.

Mértola – Vila Museu

 

O Museu de Mértola(4), criado pela Câmara Municipal de Mértola em 2004, é composto por vários núcleos dispersos geograficamente, na sua maioria localizados no Centro Histórico de Mértola. Tem sido a sua função estudar, inventariar, tratar, conservar e divulgar todo o espólio que, ao longo dos últimos 30 anos, foi sendo descoberto nas inúmeras intervenções patrimoniais e arqueológicas.

O património é assim um dos vectores fundamentais para o desenvolvimento do concelho de Mértola, pois é aquilo que nos diferencia de todos os outros concelhos do país, é a nossa mais valia.

O investimento e a aposta no património não deve ter apenas um objectivo turístico, mas também objectivos pedagógicos e científicos, os serviços educativos do museu recebem anualmente milhares de alunos de todas as idades e de todo o país.

INFO:
(1) http://www.portugalromano.com/2011/02/fortim-militar-romano-de-mata-filhos-mertola/
(2) http://www.portugalromano.com/2011/02/basilica-paleocrista-rossio-do-carmo-mertola/
(3) http://www.camertola.pt/
(4) http://museus.cm-mertola.pt/index.php
(5) http://www.portugalromano.com/2011/02/torre-do-rio-civitas-myrtilis-estrutura-defensiva/
 
«…» AS CERÂMICAS CAMPANIENSES de Luís Luís, Cadernos de Arqueologia nº27 p. 51-55

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