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Museu Arqueológico de São Miguel de Odrinhas (Sintra)

O Museu Arqueológico de São Miguel de Odrinhas assenta os seus mais profundos alicerces no Renascimento, quando alguém – muito provavelmente Francisco d’Ollanda – decidiu reunir em torno da antiga Ermida de São Miguel um apreciável conjunto de monumentos epigráficos encontrados por entre as ruínas romanas ainda então visíveis no local.

Mais recentemente, em 1955, a Câmara Municipal de Sintra tentou uma experiência inovadora para o seu tempo: a construção, em plena zona rural, de um pequeno núcleo museológico que permitisse voltar a reunir, em Odrinhas, as antiguidades entretanto dispersas, além de outras mais recentemente detectadas.

O actual Museu Arqueológico de São Miguel de Odrinhas herdou, do seu mais remoto antecessor, o espírito humanista e cosmopolita que foi apanágio do Renascimento. Do mais recente, colheu o vínculo privilegiado ao meio que o rodeia e à população rural do Termo de Sintra, região onde, de algum modo, se podem ainda hoje escutar os longínquos ecos do Passado.

Finis terrae do Mundo Antigo, zona privilegiada de intercâmbio entre o Norte Atlântico e o Sul Mediterrânico, beneficiando ainda da extrema proximidade ao Estuário do Tejo e à grande metrópole que desde cedo nele se implantou, rica de uma paisagem multifacetada – desde a Serra Sagrada, emergindo do Oceano, às colinas que de Lisboa ao Termo de Mafra enquadram uma rica série de plataformas cerealíferas entre si divididas por profundos vales fluviais, fecundos em hortas e culturas de regadio -, a Região de Sintra abunda em monumentos e vestígios arqueológicos de todas as épocas, que não se apresentam como um todo sequencial monótono e previsível, mas sim como um mosaico polícromo e fértil dos mais variados motivos que inesperadamente se cruzam e fundem, como se os passados da Europa e do Mediterrâneo aqui viessem convergir e sincretizar-se.

Sintra, pois, amostragem legítima e plurifacetada de muitas arqueologias, de muitas histórias, de muitas tradições.

Exposição permanente
“O Livro de Pedra”

Sarcófagos etruscos, monumentos romanos, lintéis “visigotistas”, túmulos medievais e outras lápides epigrafadas perfazem, no seu todo, aquilo que no Museu se designa como «O Livro de Pedra».

– “Basílica Romana”

Cerca do ano 30 a. C. Olisipo (actual Lisboa) recebeu de Octaviano, herdeiro do Divino César, o singular estatuto de “Município de Cidadãos Romanos”, o que lhe conferia as melhores regalias jurídicas, políticas, administrativas e económicas, permitindo-lhe harmonizar a Lei Romana com as antigas leis da própria cidade, mantendo assim as suas tradições sem prejuízo da mais excelente integração no Império. O seu território era muito vasto incluindo toda a Baixa Estremadura a Sul de Montejunto e a Norte da Arrábida.

Fértil de gentes oriundas das mais diversificadas partes do Império, em Olisipo os negócios e a riqueza material misturavam-se com o gosto pela palavra escrita e pelas artes. As elites municipais viveriam na sua maior parte fora da cidade, em grandes propriedades rurais – as villae -, localizando-se a maioria das principais, ao que tudo leva a crer, na actual região de Sintra.

Não admira, pois, que aqui surjam largas dezenas de monumentos epigráficos que nos falam dessas elites e da sua clientela. O Museu Arqueológico de São Miguel de Odrinhas é disso um testemunho inequívoco

- “Cronos Devorator”

Cronos devorava os seus próprios filhos. Zeus foi um dos poucos que escapou, por ardil materno. Chronos é o Tempo. Daí escrever-se, antigamente, “chronologia”, “chronometro” e outras palavras similares. No entanto, Cronos e Chronos são palavras praticamente homófonas. E o tempo também devora os seus próprios filhos, que somos todos nós. Assim Cronos, o deus terrível que se define no epíteto “devorador” – devorator -, desde cedo se confundiu com o próprio tempo que tudo altera à sua inexorável passagem.

Nesta sala do Museu existem sepulturas romanas que, poucos séculos volvidos, foram reutilizadas e transformadas em pesos de lagar de azeite ou de vinho; outras que foram transformadas em pias para os mais variados usos; outras, ainda, que foram cristianizadas – sem esquecer as que alimentaram o imaginário das populações da região saloia…

Outros temas em exposição:

- Cripta Etrusca

A presença de três sarcófagos etruscos – os únicos existentes em Portugal – no Museu Arqueológico de São Miguel de Odrinhas é fruto dessa curiosidade erudita pelo passado e pelas suas expressões artísticas. Sir Francis Cook – cidadão britânico que em meados do séc. XIX adquiriu a Quinta de Monserrate

- Igreja Visigótica

Neste espaço reúne-se uma excepcional colecção de lintéis epigrafados e/ou decorados, ostentando inscrições de inequívoca temática cristã, provenientes do lugar de Faião.

- Necrópole Medieval

Neste espaço procura fornecer-se ao visitante diversos apontamentos ilustrativos dos variados tipos de necrópoles medievais e tardo-medievais existentes em Sintra e seu Termo.

- Gabinete Lapidar

Os monumentos desta sala foram reunidos de modo similar ao utilizado na formação dos “Gabinetes Lapidares” desses séculos pioneiros da investigação epigráfica: distribuindo-se por toda a superfície das paredes, integrando-se até certo ponto na própria arquitectura; ou, quando reduzidos a fragmentos, beneficiando de vitrine própria, o “armário dos fragmenta”.

- Fines

Fines, em latim, significa fronteira. É também palavra similar e aparentada do substantivo português fim. Aqui atingimos, na verdade, a fronteira do “Livro de Pedra” e o fim do Museu.

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“O Claustro do Tempo”

Testemunhos cerâmicos, utensílios de pedra, artefactos metálicos, moedas, vidros, objectos de osso… São os contextos do dia a dia que percorreremos no «Claustro do Tempo».

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Actividades do Museu

Noites do Museu

Remonta ao ano de 2006 a realização da 1.ª edição das «Noites do Museu» no Museu Arqueológico de São Miguel de Odrinhas.

Nestas visitas encenadas, os visitantes deslocam-se na penumbra, conduzidos pelas fracas luzes das chamas de fogo vivo. Ao percorrerem as salas de exposições, os participantes fazem uma verdadeira viagem ao passado, sempre guiados por figuras de época trajadas a rigor.

Visitas Teatralizadas
Ave Amici – Viagem pela época Romana

Conduzidos por personagens da época, trajadas a rigor, os grupos de participantes são convidados a percorrer a vasta «Basílica Romana», iluminada por trémulas candeias de azeite.

O pater familias da domus, Séneca, acolhe os visitantes, descrevendo o Municipium Olisiponense onde a área de Sintra se inseria. Durante o percurso as matronae acompanhadas pelos escravos – servi – decifram várias inscrições latinas, invocando assim os velhos habitantes que há cerca de 2000 anos viveram nesta região.

Uma visita encenada que constitui uma aula de História ao vivo!

Público-alvo: dos 12 aos 16 anos

Ruínas da villa romana de São Miguel de Odrinhas

“Abóbada de um templo romano” é a designação com que o “pai” da arqueologia portuguesa, o humanista André de Resende, assinalou a velha ábside que, na sua época, sobressaía da terra fértil em velhas inscrições romanas e outras antiqualhas, junto à Ermida de São Miguel de Odrinhas.

Essas ruínas foram visitadas ao longo dos séculos e suscitaram as mais diversas interpretações: no séc. XIX, António Gomes Barreto e Gabriel Pereira continuam a chamar-lhe templo romano. Nos inícios do séc. XX, Félix Alves Pereira vê ali a estrutura de um antigo mausoléu e Vergílio Correia a de um baptistério paleocristão. As escavações vieram apenas nos anos 50, com Fernando de Almeida, e então deu-se como coisa certa tratar-se de uma basílica paleocristã. 

Hoje, porém, as dúvidas persistem: Justino Maciel retoma a hipótese do mausoléu, conferindo-lhe, no entanto, data tardo-romana; Pedro Palol acredita na basílica cristã, mas adianta-a vários séculos; Cardim Ribeiro defende estarmos, muito simplesmente, perante a exedra, ou sala nobre, da villa romana em que estruturalmente se insere, provida de um espaço para triclínio e datável de inícios do séc. IV d. C..

As ruínas da villa romana de São Miguel de Odrinhas e, até certo ponto, a própria ermida – que continua aberta ao culto -, funcionam como extensões ao ar livre do próprio Museu que foi construído em estreita articulação com esta estação arqueológica. Por detrás do Museu, ergue-se um outeiro onde afloramentos e menires se misturam, sincretizando num espaço outrora sagrado a obra do Homem e a da Natureza.

As Ruínas de São Miguel de Odrinhas encontram-se classificadas como imóvel de interesse público através do Decreto n.º 42692 de 30 de Novembro de 1959.

Biblioteca

A Biblioteca do Museu Arqueológico de São Miguel de Odrinhas poderá acolher 80 leitores em simultâneo.

As suas estantes têm capacidade para abrigar cerca de 80 000 volumes – ainda que, actualmente, a Biblioteca disponha apenas da quarta parte desse quantitativo. Trata-se de uma Biblioteca especializada aberta a todo o público interessado, sem excepção.

Os livros aqui reunidos abrangem temas de Arqueologia, História da Arte, Antropologia Cultural, Filologia, Etnografia, História Antiga, entre outros. Possui vários fundos distintos, sobressaindo o das publicações periódicas e o das monografias – onde a actualização e a internacionalização são as palavras de ordem -, para além do fundo antigo, que reúne obras do séc. XVI a meados do séc. XIX.

Informações Úteis
  
Morada
Avenida Professor Droutor Fernando d’Almeida
São Miguel de Odrinhas
 
Localização do Museu
Coords. GPS | 38º53’13,52″N, 9º21’58,61″W
A meio caminho entre Sintra e a Ericeira (EN 247). Na povoação de Odrinhas, cruzamento para São Miguel de Odrinhas/Funchal.
 
Horário do Museu
De Terça-feira a Sábado, das 10.00 às 13.00 e das 14.00 às 18.00
O Museu encerra aos Domingos, Segundas-feiras e Feriados
 
Ingressos: 2 euros
Visitas: Todas as visitas são guiadas.

O Museu Arqueológico de São Miguel de Odrinhas, um projecto arrojado? Não! Uma realidade arrojada! Concebida à proporção da riqueza patrimonial de Sintra e dos parâmetros internacionais por onde forçosamente se terão de pautar todas as iniciativas congéneres que pretendam validamente ultrapassar as fronteiras do localismo e das gerações imediatas.

Para mais informações consulte o site do Museu Arqueológico de São Miguel de Odrinhas em http://www.museuarqueologicodeodrinhas.pt/default_pt.php

«Texto e fotos da autoria do Museu Arqueológico de São Miguel de Odrinhas»

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