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Civitas Calabriga (Monte do Castelo ou Calabre, Almendra)

Civitas Calabriga

A história da cidade de Calabriga, Calábria ou Caliabria tem dois momentos importantes, um passado real marcado pelo esplendor e desenvolvimento social, que desde os tempos pré-romanos ao período visigótico marcou a vida da cidade, e outro após um longo silêncio, que se encontra documenta no século XII e transforma a cidade num símbolo mais do que uma realidade.

Cidade Romana

A memória romana é preservada em vestígios arqueológicos referidos em alguns trabalhos:

«muralha do Monte do castelo»
*
 

Na acta 2 do III congresso de arqueologia de Trás-os-Montes, alto douro e Beira interior Proto-história e romanização do Baixo Côa: Novos contributos para a sua caracterização o arqueólogo António do Nascimento Sá Coixão relata um pouco das suas ideias sobre Calabriga e a sua possivel localização:

«Junto ao Douro e Côa terá existido a tal quarta cidade que cita o Professor Jorge de Alarcão, ela terá sido certamente a Calabriga ou Calábria, cujo território não terá sido muito abrangente (!?). Também cremos que, a localizar-se no termo da Vila de Almendra, esta civitas não se localizaria no “monte do Castelo” mas numa zona mais plana, talvez nas fraldas e no sítio que tem sido intervencionado por Susana Cosme, denominado Olival dos Telhões.

«Olival dos Telhões com Monte do Castelo em fundo»

Não é de excluir a sua localização mesmo no perímetro urbano da vila de Almendra. Uma intervenção de emergência de Sá Coixão (2003-2004) no Adro da Igreja (lado norte), com abertura de uma vala para esgotos de águas pluviais, além de várias sepulturas tardo–medievais, foram registadas valas (antigos caboucos) e muitos materiais da época romana.

«Moeda do Imperador Magentius encontrada no Olival de Telhões»


Em artigo publicado o autor cita :

“… já há alguns anos, em recolhas de superfície na área a norte da Igreja Matriz de Almendra, mais precisamente na denominada “Quinta do Andrade”, o signatário efectuou recolhas e inventariou o sítio como estação arqueológica romana” (Coixão,2004a: 75-82).

E continua, “na vala escavada (acção de emergência do ano de 2004) foram efectuadas recolhas de cerâmicas romanas (comuns, finas e sigilatas) e ainda duas moedas do séculoIV d. C. No denominado corte A-B  são bem visíveis dois níveis anteriores aos enterramentos, níveis onde foram registados e exumados os já citados materiais (espólio) do período de ocupação romana…” (Coixão, 2004a: 75-82).

Será necessário, também aqui, nos terrenos envolventes da Igreja de Almendra, proceder a sondagens para verificarmos se se trata de vestígios de uma villa ou de outro conjunto maior (Vicus ou a própria civitas)» (p-36)

«Monte do Castelo, civitas calabriga»


A arqueóloga Susana Cosme refere o Monte do Castelo (ou Calabre), uma possível localização da cidade, na sua Dissertação de Mestrado em 2002 :

«Vestígios: Muralha circundante que envolveria uma superfície de 60.000 m2, grandes silhares, alguns almofadados, restos de pedras de possíveis construções, moedas, tegulae, tijolos, mosaicos e sepulturas (…) Situação privilegiada de controle de povoados e vias fluviais e terrestres. Foi castro, possível civitas romana, com continuada ocupação até à Alta Idade Média, sendo sede de bispado na época visigótica, continuando a ser referida durante a ocupação mozárabe.»

Da sua memória romana, o passado não é preservado em fontes clássicas.

No entanto, a esta cidade é atribuída a proveniência uma lápide que hoje se encontra na Capela de Santo Cristo, em Barca de Alva.

MODESTVS AVIRATI F. C.
BEL. AN. LX. CORNeliA
GENSVLIA. AN. L. H. S. S. S.
V. T. L. C. AVIMIVS MODE
STINVS. PATRI. FIRMVS
MODESTI. LIB. PATROno
***

Aqui estão sepultados Modesto, filho de Avirato que depois da guerra, morreu aos 60 anos e sua esposa Cornelia Gensulia morreu com 50. Que a terra lhes seja leve.

Cayo Avimio Modestino, liberto de Modesto, mandou fazer esta memoria a seus pais e patrono.

***

A área arqueológica do Monte Calabre ou do Castelo nunca foi devidamente estudada apenas realizadas pequenas prospecções ou sondagem não existindo registo da realização de escavações arqueológicas. Pelo que as informações hoje disponíveis devem ser lidas de forma critica.

Cidade Visigótica – Bispado de Caliábria

No século VI a Cidade consegue uma notável força ao ser constituído o bispado de Caliábria. Desde então, o Bispo calabriense participou e assinou vários dos conselhos de Toledo realizados no reino visigótico.

É dentro deste contexto de reorganização do Reino visigótico, que existem referências ao Riba Côa, através da diocese de Caliábria. Sabemos que era a localidade mais importante, contudo, a data da fundação é incerta. Supõe-se que a passagem a diocese terá ocorrido durante o reinado de Suitila (612-631), pois foi o primeiro bispo de Caliábria que aparece a assinar as actas do 4.º concílio de Toledo, em 633, onde assina“ Servus Dei, episcopos callabriensis”.

A criação de Caliábria impunha-se, segundo M. Gonçalves da Costa ”… não existindo outra sede em espaço tão dilatado, como era de Viseu a Salamanca e Egitânia e aumentando a conversão dos povos, tornava-se extremamente molesto a visita que os bispos eram obrigados a fazer. Foi pois natural que os Visigodos católicos resolvessem colocar outro bispo em Caliábria…”.

D. Mateo Hernandez Vegas, in Ciudade Rodrigo, la catedral y la ciudad Salamanca (1935), indica que a decadência de Civitas Augusta (Ciudad Rodrigo) exigiu a criação do bispado de Caliábria “… é certo e bem comprovado que a sede da arruinada Civitas Augusta foi transladada para Caliábria, cidade situada na foz do Côa no Douro…”.

IV Concílio de Toledo

O Quarto Concílio de Toledo foi um concílio regional da Hispânia visigótica realizada a 5 de Dezembro do ano de 633 na cidade de Toledo, Espanha. Seguindo um costume originado com Constantino, imperador de Roma, o concílio foi convocado pelo então rei visigodo Sisenando e presidida pelo Bispo Isidoro de Sevilha.

Neste concílio foram formuladas as colecções de Leis, tanto civis quanto eclesiásticas, citando entre as primeiras o famoso Forum Iudiciorum (foro dos juízes), e entre as segundas 29 cânones relativos à disciplina e à administração da Igreja. Os clérigos foram declarados isentos de impostos e taxas, previram-se punições para quem faltasse aos juramentos de lealdade para com o rei ou se revoltassem contra ele, além de considerarem o rei o “Ungido do Senhor”.

Este Concílio também decidiu sobre a forma de sucessão do monarca e foi taxativo: a coroa seria atribuída por eleição, tendo por votantes os aristocratas e os bispos.

A Diocese de Caliábria

A Diocese de Caliábria é uma diocese histórica, sendo actualmente uma sé titular.

Existiu, anteriormente à nacionalidade, ao longo do século VII da nossa Era, dela se conhecendo apenas os nomes de quatro bispos.

Servus-Dei (633-646)
Celedónio (653-660?)
Aloário (666-670?)
Ervígio (688-693) 

Resultou da divisão da diocese de Viseu no século VII, tendo o seu território voltado a reintegrá-la posteriormente.

A sede situava-se à margem do rio Douro no morro Calabre, freguesia de Almendra, concelho de Vila Nova de Foz Côa. Ocupava os actuais territórios portugueses do Ribacôa, sendo provável que se expandisse mesmo ainda mais para Ocidente, de encontro às dioceses de Lamego e Viseu.

O fim de Caliábria

A decadência de Caliábria está directamente ligada à da própria monarquia visigótica, que atingiu o seu ponto alto na viragem do séc. VII para o VIII, em razão das disputas pela coroa.

A morte do rei Vitiza e a sua sucessão por um filho não é aceite por um grupo de nobres que entregam a coroa a Rodrigo. A isso se opõem dois homens: D. Julião, governador de Ceuta e D. Opas, arcebispo de Hispalis (Sevilha) tio e tutor dos herdeiros afastados. O governador de Ceuta estabelece aliança com Muça, sarraceno e chefe das forças do norte de Africa. As tropas de D. Julião e Muça vencem Rodrigo no ano de 711 na batalha de Guadalete.

Extinta pouco antes da invasão muçulmana da Península Ibérica e desde esse momento, apenas no séc. XII, altura do nascimento de Portugal, voltou a falar-se de Caliábria.

Caliábria no Séc XII – Bispo Domingo

Já no século XII, Caliábria reaparece no documento de doação do Rei Fernando II, em favor do Bispo Domingo. Este teria a sua sede em Ciudad Rodrigo, mas intitulava-se «calabriense», convertendo-se herdeiro da cidade e do seu passado visigótico dando maior brilho do seu pontificado.

A situação terá sido premeditada, Ciudad Rodrigo tinha sido repovoada em 1161, este titulo atribuía-lhe antiguidade. Além disso, tinha erguido um novo bispado, separando-se do Bispado de Salamanca.

Para evitar conflitos e reduzir a tensão entre as Igrejas, o primeiro bispo de Ciudad Rodrigo foi apresentado não como uma nova diocese, mas como o restaurador da antiga cidade episcopal da Caliábria (já uma cidade abandonada).

Esta ficção jurídica, servia para a monarquia, a inspiradora de todo o projecto, livrar-se as queixas do clero Salamanca.

Com a  morte do Bispo Domingo tornou-se necessário reunir todas as partes e assinar acordos  para acalmar as incertezas e ressentimentos. Ciudad Rodrigo teve novo bispo que se passou a intitular «civitatense» e Salamanca recebe em troca certos bens em compensação, quanto a Caliábria voltou para o silêncio das fontes.

Se esses anos foram destinados a revitalizar a cidade é algo que não sabemos hoje e só podem ser desvendados pela arqueologia.

A verdade é que após o Bispo Domingo, a cidade romana e visigótica caiu no esquecimento e sua localização foi desconhecida, até que finalmente se indica este lugar… Monte de Calabriga (ou do Castelo)

Uma viagem a Calabriga…

Uma estrada larga que corta as oliveiras, evocando alguma tranquilidade. Pouco tempo depois, a paisagem muda abruptamente. O homem criou terraços nas encostas da montanha, coberta de vinhas. O caminho estreita-se, subindo o Monte do Castelo acompanhado por uma fileira de vinhas.

Quando vista sobre o rio Douro fica aos nossos pés, precisamos estar muito atentos a um caminho que se esconde à nossa esquerda, devido à passagem do tempo, é quase ausente.

Uma vez localizado começaremos uma subida mais acentuada de cerca de uma hora, através da encosta leste do monte. Para viajar esta ilusão pisando sobre os trilhos onde tantos outros, como o bispo Domingo, deixou séculos atrás.

Em ambos os lados da nossa caminhada se vai desviando o nosso olhar com muitos fragmentos de mármore, de diferentes qualidades e cores que lembra de outros tempos e esplendor.

O percurso desta estrada vai nos levar às portas antigas da civitas calabriga, agora muito difíceis de identificar.

Uma vez no cume pode-se facilmente identificar a antiga muralha que protegia os seus antigos habitantes. Com uma altura de apenas um metro por dois metros de largura e construída em quadros, abrange uma área de 60.000 m2.

Uma boa opção será usar a muralha como um caminho improvisado para desfrutar das magníficas vistas dos arredores. O muro ainda parece continuar a ser o guardião do lugar, o brilho de um passado distante. Tudo está escondido debaixo dos nossos pés.

A viagem no tempo não nos deixam ir mais longe, apenas olhar o chão e os acidentes no terreno vendo ali maneiras possíveis e impossíveis de edifícios, becos, e seu povo vagueando entre eles. O viajante em calabriga, apenas através da imaginação, será capaz de ver os seus mistérios.

***

Bibliografia
A. A. D. CABRAL, Historia da Cidade de Calábria, em Almendra, Porto, 1963.
J. d. C. POLICARPO “A Cidade Romana e a Diocese de Caliábria”, pp. 107-114 y L. A. GARCÍA MORENO “Riba Coa en el Período Visigodo”, pp. 115-129, ambos en 0 Tratado de Alcanices e a importancia histórica das terras de Riba Côa, Lisboa, 1998
J. I. MARTÍN BENITO, “Caliabria y Ciudad Rodrigo”. Ciudad Rodrigo, Carnaval 2001. Salamanca, 2001, pp. 325-331.
J. J. SÁNCHEZ-ORO ROSA, Orígenes de la Iglesia en la Diócesis de Ciudad Rodrigo. Episcopado, monasterios y órdenes militares (1161-1264), Salamanca, 1997.
LA CIUDAD PERDIDA DE CALABRIA – Centro de Estudios Mirobrigenses
Sá Coixão, III congresso de arqueologia trás-os-montes, alto douro e beira interior (2006 Acta 2 p-36)
 
Susana Cosme, Entre o Côa e o Águeda Povoamento nas épocas romana e alto-medieval – Dissertação de Mestrado em Arqueologia (2002 p- 25 .13)

 

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