Em Marialva no lugar da Devesa, concelho de Meda existiu aqui uma cidade romana conhecida por Aravorum que se estendia desde a elevação até à ribeira cujos vestígios mais importantes foram detectados na povoação da Devesa.
De facto, as origens longínquas do actual castelo de Marialva remontam ao tempo da antiga cidade pré romana de Aravor, que parece ter sido fundada pelo povo Aravi que constituíam os Lusitanos.
A primeira referência ao povo dos Aravi surge na inscrição dos povos na ponte romana de Alcântara (rio Tejo, Espanha).
Esta ponte foi construída e paga pelas tribos Lusitanas, entre elas os ARAVI, como «tributo de guerra».
Representa a indemnização paga pelos últimos resistentes Lusitanos ao domínio romano. Foi construída entre os anos 105 e 106 dC. em honra do Imperador Trajano pelo arquitecto romano Cayo Iulio Lacer na Via que comunicava Norba -actual Cáceres com Conímbriga – actual Condeixa-a-Velha.
O principal núcleo da comunidade dos Aravi, o Castro de São Justo, também conhecido por Castro de Aravos, actual Castelo de Marialva estava situado numa eminência rochosa sobranceira aos Campos da Devesa, a cerca de 580 metros de altitude, e foi o local escolhido para se instalarem, tendo sido posteriormente romanizado.
A Cidade romana, visível por fotografia aérea, com uma malha urbana orientada noroeste/sudeste. Terá desenvolvido ao longo da cota 500, na área que oferecia maior planura. Parecem ter sido identificados outros traços paralelos e perpendiculares, que poderão corresponder a insulae.
No século XVIII, Viterbo afirmava que se viam “dois bravos edifícios de gosto romano” um dos quais terá servido de Igreja, e que chamavam “a torre”.
Em 2003 o Arqueólogo Sá Coixão seguindo as descrições das Memórias Paroquiais do século XVIII identificou os dois edifícios romanos no lugar da Devesa e que terão servido de lugar ao culto cristão.
O sitio que serviu para implantar a Capela de Nossa Senhora dos Remédios e outro onde se encontrarão os vestígios do templo possivelmente dedicado a Júpiter.
O fórum Ausgustano da civitas de Aravorum não deve portanto fugir muito da hipotética reconstituição (em planta) da autoria de Sá Coixão, com o templo, as lojas e a basílica.
A povoação detêm a sua traça romana muito deteriorada pelas invasões germânicas e muçulmanas. No entanto, os inúmeros vestígios ali encontrados testemunham a presença constante e marcante da colonização romana.
O Templo romano dedicado a Júpiter(?)
No logradouro de uma habitação que medeia dois largos: a este o Largo do Negrilho e a oeste o Largo da Feira, junto a Igreja encontram-se duas grandes colunas(fuste) uma delas ainda com base e o capitel.
A habitação mantém ainda a monumentalidade fora do vulgar, o seu interior ainda é possivel observar parte da cornija do Templo.
O edifico terá sofrido duas ampliações possivelmente no sec XVIII e XIX, contudo é possível verificar o espaço ocupado pelo podium do templo bem como os seus muros originais.
Em 2004 durante uma intervenção de emergência liderada pelo Dr. Sá Coixão foram exumadas cerâmicas romanas (siglatas)
Segundo descrito no Dicionário Chorográfico de Portugal aqui foi achada uma ara dedicada a Júpiter Óptimo Máximo
Basílica do Fórum de Aravorum
O espaço hoje ocupado pela Capela de Nossa senhora dos Remédios e junto ao Templo romano terá existido a Basílica do Fórum.
Um fragmento de inscrição romana mandado gravar por um ou mais “libertus” que se encontra embutida na parede da Capela
Barragem e aqueduto romano
Diversos autores fizeram referência a uma represa com aqueduto que conduzia a água para um tanque dentro da povoação da Devesa.
A cerca de um quilómetro a poente deste núcleo, é possível ainda encontrar a célebre “Naumaquia”, que abastecia os banhos públicos romanos e é, provavelmente, umas das melhores que a civilização romana deixou na Península.
Esta barragem seria alimentada por uma nascente que ainda existe no interior da área inundável e por outras nascentes exteriores que foram desviadas para o lago através de canais escavados no solo e delimitados por muros. No interior da área inundável existe um grande tanque construído com silhares ciclópicos que recebia a água de uma nascente localizada nas proximidades do lago e desviada para este local propositadamente.
Constituída por um lago artificial, reunia as águas que eram depois canalizadas através de aquedutos para abastecimento dos banhos públicos da cidade.
São visíveis restos de conduta em granito nas imediações do tanque. Inúmeras pedras de canalizações, provavelmente do aqueduto que escoava a água da barragem. Encontra-se este tipo de pedras nos muros de delimitação de propriedade e de algumas casas, praticamente até à Devesa.
Na represa, aberta em 1790, foi encontrada uma grande pedra com uma argola chumbada. Parece haver vestígios de sulcos cavados na rocha que faziam parte do aqueduto.
Possui forma elipsoidal, cinco a seis metros de profundidade e uma capacidade para mais de 500 metros cúbicos de água.
Termas Romanas
Vestígios de um provável balneário, possíveis termas de Aravorum onde se encontraram vestígios de pavimento ladrilhado e uma canalização de chumbo os quais apareceram na área da Tapada, junto da ponte romana(?), sobre a ribeira de Marialva.
Em alguns tubos de chumbo lê-se o nome da oficina:
«EX-OFFICI ULFRACCILIANI»
Inscrições romanas
Temos inúmeros achados romanos espalhados por toda esta área e a descoberta de duas importantes inscrições latinas, uma ao imperador Adriano, datada de 118 dc.
A lápide honorifica terá sido encontrada na zona do Castelo de Marialva, no séc. XVIII. O Pároco em 1758, refere que se encontrava embutida na parede exterior da sua casa, onde permaneceu até 1942. Actualmente encontra-se no Museu da Guarda.
Lápide honorífica apresentando a forma de um rectângulo, cujas arestas, sobretudo na face epigrafada, se encontram fragmentadas. Possui uma inscrição delimitada por frisos em médio relevo, e o campo epigráfico está um pouco apagado à esquerda.
Inscrição:
IMP(eratori) CAES(ari) DIVI TRAIAÑI / PARTHICI F(ilio) TRAIANO / HADRIANO AVG(usto) / PON(tifice) MAX(imo) TRIB(uniciae) / POTEST(atis) II CO(n) S(uli) II / CIVITAS ARAVOR(um).
Tradução:
Ao Imperador César Trajano Adriano Augusto Pontifice Máximo, Filho do Divino Trajano Pártico, com o poder Tribunício pela primeira vez, Consul pela segunda vez (dedica) a Cidade dos Aravos.
A lápide é dedicada ao Imperador Adriano, datada de 118 d.C. que permitiu a localização da Cidade dos Aravos (actual Devesa – Marialva), tribo da Lusitânia de origem Celta.
No chão do Ervilhão, embutida na parede de uma casa de campo encontra-se esta inscrição funerária romana e que diz o seguinte:
«PARAMA ECO. BOV ATI(filio) STAT VERVNT FILI(i)SVI ET TAN CINVS CILI(i) (filius)»
traduzida como:
A parameco, (filho) de bovato, os seus filhos e Tacino, (filho) de Cílio, erigiram (esta memória)
Na vila de marialva foi recolhida outra interessante Ara que apenas se consegue a leitura parcial:
«(…)/VS. FLACCI(filius) / COBELCVS / V(otum) L(ibens) A(nimo) S(olvit)»
De salientar a referencia a COBELCVS, indica a presença de homens oriundos do povo sediado na Civitas COBELCORUM situada em Torre de Almofala.
Outra inscrição ao deus Júpiter, provavelmente proveniente do templo do fórum.
Fragmento de Inscrição gravada por um ou mais LIBERTUS e que se encontra na parede da Capela de Nossa Senhora dos Remédios (possível basílica do fórum romano)
Necrópole romana
Os vestígios romanos localizam-se entre a Quinta da Leveira (ou Quinta da Lobeira) e a Quinta das Cardosas e são dados como pertencentes a uma necrópole de incineração da cidade romana e datada dos séculos II e III d.
Os vestígios romanos (tegulae, tijolos e cerâmica comum) são abundantes sobretudo junto ao caminho que, da ponte sobre a ribeira de Marialva, segue em direcção à Caspina. Na margem direita da ribeira, os vestígios prolongam-se até ao caminho da ponte moderna sobre a ribeira de Marialva, a montante da Devesa.
Nota final
Na década de 90 do século passado o ex-ippar realizou estudos na zona de Marialva, recolhendo e registando vestígios da civitas contudo os resultados nunca foram publicados pelo que este documento foi elaborada e baseado nos trabalhos publicados pelo arqueólogo António do nascimento Sá Coixão sobre a Civitas Aravorum e editados pela publicação CôaVisão – Cultura de Ciência nº6/2004 e nº9/2007 editado pela Câmara Municipal de Vila Nova de Foz Cõa.
As memorias de Aravorum merecem ser remexidas, desenterradas.
Quem visita as lojas, os quintais das habitações verifica a quantidade e diversidade de materiais romanos ali espalhados e depositados.
Marialva, terra de memorias medievais deveria trazer a luz do dia os lugares dos bravos lusitanos Aravis que viveram sob o domínio dos romanos.
Fotos: Sá Coixão, Glória Ishizaka, google map













6 Comments
Pedro
2011/08/22 at 09:56Raul Losada
2011/08/22 at 11:27Jose Domingo
2011/12/29 at 16:51raullosada
2011/12/29 at 18:14Jose Domingo
2011/12/29 at 20:43raullosada
2011/12/29 at 22:47