Localizada numa colina relativamente acentuada, a villa terá tido uma primeira ocupação no séc. I, como é documentado pelo aparecimento de uma moeda de Nero e cerâmica datada deste período. No entanto, a ocupação mais significativa, em termos de vestígios materiais, é já do Baixo Império (finais do séc. III – inícios do séc. IV). As primeiras escavações arqueológicas neste sítio ocorreram em 1915 e 1916, e posteriormente retomadas entre 1970 e 1980.
Os materiais detectados e recolhidos no seu perîmetro permitiram delinear um quadro mais abrangente das edificações que pontuavam na origem esta estrutura agrícola romana.
Delimitada por um sólido muro de “opus incertum” (alvenaria), a “villa” era constituída por diversas estruturas tradicionalmente presentes neste género de edificação romana. Assim, além da imprescindível habitação dos proprietários, localizavam-se neste conjunto toda uma outra série de pequenas edificações destinadas, quer à habitabilidade dos próprios serviçais, como às actividades naturalmente promovidas no âmbito de uma “villa”. Não obstante, esta estrutura habitacional e agrícola destaca-se sobretudo pela presença de testemunhos matéricos de um notório passado faustoso, evidenciado nos diversos mosaicos – nomeadamente na parte do peristilo que chegou até aos nossos dias -, de motivos predominantemente geométricos, assim como nas esculturas em mármore e pinturas murais que decoravam parte significativa de todo este complexo, onde os banhos ocupavam, sem dúvida, um lugar de destaque, como, aliás, sucedia noutras “villas” localizadas ao longo do nosso país.
O conjunto de mosaicos encontrados neste sítio arqueológico é um dos mais notáveis do nosso país, para cujas temáticas predominantes alguns investigadores parecem encontrar paralelos nos pertencentes à “villa” de Torre de Palma, embora sublinhando a qualidade de execução visivelmente superior destes últimos. No entanto, fazia parte dos mosaicos encontrados em Santa Vitória do Ameixial o denominado “Mosaico de Ulisses”, actualmente no Museu de Arqueologia Nacional.
OS MOSAICOS DA VILLA
Mosaico rectangular, composto por duas secções: uma ao centro, quadrada, a outra formada por faixas rectangulares, de diferentes tamanhos, ao redor da parte central. A parte central separa-se das faixas que a rodeiam, por uma moldura de entrançado a preto, branco e amarelo, sobre fundo negro.
Inscreve figuras repartidas por quatro medalhões circulares, em volta do centro do quadrado, e oito quadros semi-circulares assentes sobre a moldura envolvente, dois por cada lado. Cada semicírculo encerra um busto de perfil ou de frente. Quatro destes, em dois lados opostos, representam as estações do ano.
Os restantes, com a mesma disposição, representam os quatro ventos principais, de bochechas cheias soprando vento, cujos nomes é possível ler na parte exterior dos semicírculos: BOREAS, NOTUS, EURUS e ZEFIRUS.
Os medalhões circulares apresentam cenas marítimas: num aparece uma figura feminina de frente, sentada sobre um touro-marinho de cauda terminada em barbatana tripartida, a água é representada por meio de linhas descontínuas e pela presença de um peixe, trata-se de uma alusão ao tema do rapto da Europa;
no lado oposto é possível ver a parte superior de uma personagem masculina alada (Cupido) com arco em posição de disparar, numa alusão à cena em que Júpiter tocado por uma seta do Cupido, toma a forma de touro e rapta a Europa, fugindo para o mar, em direcção a Creta.
« Júpiter tocado por uma seta do Cupido»
Os restantes medalhões encontram-se bastantes deteriorados, crê-se que retratariam outras fases do rapto de Europa, nomeadamente o desfecho da acção perpetuada por Júpiter. A completar decorativamente o assunto mitológico da cena marinha, pelos intervalos entre os medalhões e os outros quadros, encontram-se peixes. Aos quatro cantos da parte central encontram-se pequenas flores estilizadas, no centro um óculo circular branco com a parte central preta. As faixas que rodeam o quadro central variam nos temas distribuindo-se em quatro temas: mitológico e homérico, poético, atlético e mágico. A primeira faixa a descrever parece representar nos dois quadros o cortejo (thiasus) triunfal de Anfitrite, mulher de Neptuno. O cortejo é composto por um cavalo marinho e dois centauros que levam nas suas caudas Nereidas.
A disposição das personagens é praticamente simétrica, situando-se as Nereidas ao centro, apesar de os dois centauros se dirigirem cada um para o seu lado. A parte inferior do quadro é decorada com peixes.
Os quadros estão encaixadas em moldura própria, de losangos pretos, vermelhos e brancos. A parte inferior do mosaico completa-se com uma faixa de moinhos de peltas. A parte esquerda do mosaico está dividida em duas cenas. Na primeira um touro leva sobre si uma jovem, representada com o corpo cor -de-rosa, contornado de tesselas vermelhas, as vestes brancas voam ao vento,com as pregas vincadas por pedras azuis, amarelas, alaranjadas, alternadamente, e a orla debruada de vermelho, verde e azul. O touro é de contorno preto, com o corpo branco. A jovem abraça a cabeça do touro.
A segunda cena representa a conhecida passagem do canto XII da Odisseia, em que Ulisses viajando, numa embarcação com os seus companheiros passa perto da ilha das Sereias. O grupo da embarcação está centrado pela figura de Ulisses de pé, com as pernas ligeiramente separadas e inclinadas para a direita. Leva os braços atrás, para indicar que está atado ao mastro da embarcação. Segundo Homero, Ulisses é advertido para se atar ao mastro do seu navio de modo a escapar ao mortífero canto das Sereias e ordenar aos seus homens para que se dediquem a remar com todas as suas forças como forma de evitar, quanto antes, o local onde aquelas criaturas exerciam as suas artes mágicas. Aquelas são representadas com corpo de ave e cabeça de mulher. Acabam as cenas marítimas e começam os combates. Assim, a faixa seguinte apresenta uma série de quadros parcelares, cada um deles formado por duas personagens. O primeiro tem na esquerda um homem de pé, com o braço erguido e mão aberta em atitude de combate, enquanto da direita se vê o busto de um segundo homem, que volta as costas ao primeiro.
A seguir, o segundo quadro representa à esquerda um homem de joelhos, de frente, em postura humilde; à direita outro homem de pé, também de frente, com uma palma azul e alaranjada na mão esquerda, e uma coroa de folhagem, feita de tesselas vermelhas, amarelas e azuis na mão direita. Representa a coroação do atleta vencedor no ditirambo em jogos dionisíacos. À esquerda da cabeça do laureado, lê-se uma inscrição com invocação a Diónisos.
Na mesma faixa sucedem-se mais dois quadros de jogos pugilísticos, apresentando dois atletas, de pé, um frente do outro, num combate de pugiles. O quadro imediato ao canto tem a curiosidade de estar invertido em relação às figuras dos quadros laterais. As molduras, que cercam esta faixa, são variadas e duplas. Exteriormente, a cercadura geral tem por decoração uma série de suásticas, paralela a esta uma cercadura de losangos e quadrados. Cada um dos quadros é por sua vez emoldurado por cercadura de entrançados. Na faixa seguinte, aparecem três personagens (atletas), dois correndo um após o outro da direita para a esquerda, e em sentido inverso corre o terceiro. Retratam cursus dupla, isto é, corrida de ida e volta, no gymnasium ou na palaestra. As figuras são menores e a técnica mais simples. Acabam os jogos atléticos, em que figuram atletas leves e pesados, estes eram os que tomavam parte na luta, no pugilato.
Por fim desdobra-se uma cena de magia, através de uma fórmula de devotio caracterizada: figura de pessoa amaldiçoada, indicação do castigo a impor-lhe, e a imprecatio às divindades infernais (fórmula escrita). Um homem nu, de tronco e pernas, com um curto avental de tanga, voltado para a direita, açoita com uma virga (vara ou ramo) uma mulher inteiramente nua, a furtar-se diante dele, em atitude púdica e de defesa.
Esta estranha cena no mosaico proveniente de Santa Vitória do Ameixial recebeu as mais diferentes interpretações, escolhemos apresentar a elaborada por José D’Encarnação pelo sua singularidade.
«O mosaico de um homem cingido de tanga ameaça fustigar uma mulher desnudada que, vergada sobre si própria, parece querer fugir, protegendo com uma mão a cabeça e com a outra o sexo.
A cena curiosa e enigmática apresenta junto ao homem um par de sandálias e uma selha sendo a inscrição tripartida
A frase em latim que legenda a estranha cena:
«FELICIO TORRITATVS
PEIOR EST QVA(m) VT CIRDALVS»
pode, significar o seguinte:
«Felicião, escaldado, é pior que um carroceiro».
E, entre as pernas, outra legenda:
«FELICIONE MISSO»
Que poderá ser interpretado como:
«Quando Felicião está fora de si».
Poderemos, pois, interrogar-nos acerca da razão da ira e teremos curiosidade em saber com que objecto, realmente parecido com uma vassoura, o senhor ameaça a escrava.
Bate na escrava que não soube manter à temperatura correcta a água da piscina termal: Felicião escaldou-se, queimou-se… Torritatus tem o duplo sentido, físico («queimado») e psicológico («quente», «enfurecido») – e nessa duplicidade reside o picaresco da cena, susceptível de fazer sorrir com gosto quem entra e com ela assim de repente se depara.»
Esta interpretação é da autoria de JOSÉ D’ENCARNAÇÃO e para uma melhor compreensão da cena retratada no mosaico e suas diferentes interpretações aconselhamos a leitura de «Leite de Vasconcelos e as inscrições romanas – flagrantes de um quotidiano vivido» Por José D’Encarnação
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Em 2008 foi elaborado um projecto com vista à valorização e apresentação deste Sítio Arqueológico e se procedeu à conservação e restauro do único mosaico que se encontra “in situ”, ao mesmo tempo que se projectou a construção de uma cobertura de protecção, a sinalização do percurso de visita e a criação de um espaço de acolhimento dos visitantes.
Infelizmente o local encontra-se vedado e encerrado a visitas.
Para conhecer a villa romana contacte o CM de Estremoz ou o Igespar para se informar da possibilidade de realizar a visita.















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