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Povoado do Baldoeiro – Civitas Baniensium

Povoado do Baldoeiro

O local, implantado sobre um pequeno esporão da encosta sudoeste do planalto de Adeganha, forneceu vestígios de ocupação humana desde a pré-história até ao presente.

«Ruínas da Igreja românica de S. Mamede (no Baldoeiro), onde surgiu a ara consagrada a Júpiter»

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Ocupação RomanaCivitas Baniensium

É um povoado de origem pré-histórica, que foi sendo ocupado sucessivamente até ao presente.

No peridodo Pré-romano o castro terá sido ocupado pelos Banienses, povo que dominava o território do Alto Douro, e desse período existem, insculturados no afloramento, motivos de feição serpentiforme.

Do período castrejo restam ténues vestígios de habitações, que seriam rodeadas por uma pequena muralha defensiva.

Durante a ocupação romana surgiu o nome do castro (Civitas Baniensium) e procedeu-se à alteração fisionómica do local.

Entre os vestígios dessa época destaca-se um altar dedicado a Júpiter, para além de uma estatueta representando um touro e estruturas habitacionais com pavimento em granito.

«Parte da muralha do povoado da Idade do Ferro, do Castro do Baldoeiro»

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Ainda nas imediações, mas já da Idade Média, podemos observar o local onde existiu uma torre medieval e as ruínas da igreja românica de S. Mamede, para além de sepulturas escavadas na rocha.

Templo Romano dedicado a Júpiter

As Ruínas de uma capela dedicada a São Mamede. O edifício é de origem romana, que era consagrado a Júpiter e que depois foi convertido em local de culto católico. Nas ruínas foi encontrada uma inscrição com cerca de 1,5m de largura dedicada a Júpiter por Sulpicus Basus dos Banienses.

IOVI
OPTIMO
MAX
CIVITATI
BANIENSIV
BASVS
D.

«Segundo o Abade de Baçal, esta inscrição foi encontrada em 1844, num sítio chamado Mesquita, a 5 km de Moncorvo, nas ruínas da capela de S. Mamede e transportada para a vila de Moncorvo pelo Morgado Francisco Carneiro, que a colocou no seu quintal. Encontra-se no M.N.A.
No seu lado direito encontra-se gravado, “foi achada nas ruínas de S. Mamede em 1845”.»
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Santuário pré-romano associado ao culto ofiolátrico (de serpentes)

No concelho de Torre de Moncorvo, no sítio arqueológico do Baldoeiro, sobre o Penedo do Corvo, existem algumas cavidades e entalhes picados na rocha que alguns autores de inícios do século XX (entre os quais Santos Júnior) compararam com o santuário de Panóias. Se bem que seja possível que estes entalhes possam corresponder a uma torre roqueira da Reconquista, eventualmente edificada sobre o penedo, há uma ou duas pequenas cavidades cuja função é inexplicável, pelo que poderá corresponder, efectivamente, a um santuário pré-romano associado ao culto ofiolátrico (de serpentes), devido a uns gravados serpentiformes que aí também existem.

Avieno e da nossa Ophiusa “Terra das Serpente” como nome do território português na pré-história recente, associado ao nosso território dos adoradores de serpentes. Segundo este autor romano os Estríminios, que habitavam o Ocidente Peninsular, teriam sido expulsos por uma “invasão de serpentes” ou por um povo os Saephes que conforme o nome indica, seriam adoradores de serpentes (do grego sepes).  Será a imaginação de Avieno a funcionar, será lenda ou será realidade da nossa pré-história?

Pelos mistérios que estes sítios encerram, aqui fica uma proposta de visita. Se bem que o Baldoeiro não esteja devidamente valorizado para apresentação ao público.

«Esta cobra que mede 1m85 faz parte de um conjunto de seis, das quais, a maior mede três metros. Podem ser observadas no dorso da enorme rocha granítica conhecida localmente por Fraga do Corvo e, também, por Fraga ou Penedo do Cobrão.»

Santos Júnior adianta que poderá tratar-se de um vestígio reminiscente de algum culto ofiolátrico, mas, até ao momento, não se encontrou documentação que comprove a existência de tal culto nesta região.

O que se pode afirmar é que se trata de uma zona riquíssima em vestígios arqueológicos que demonstram ter havido uma continuidade de ocupação do local, desde a Pré-História até à actualidade. Esses vestígios são ainda visíveis apesar do denso matagal existente em algumas partes do percurso que, aconselho, deve ser feito a pé.

São muitas as histórias contadas sobre este local, desde as habituais mouras encantadas até a serpentes que falam.

Transcrevo uma, também ela, existente nos apontamentos de Santos Júnior:

Lendas sobre este local:

“Uma mulherzinha que me transportava a sacola e a máquina fotográfica ia-me informando das tradições que correm acerca destes sítios.

Assim, ao chegarmos à citada camada do Ninho do Corvo, informa-se de que na antiguidade era camada de S. Mamede, nome que é dado no livro de São Cipriano que dá as antiguidades todas. Continuando, a mesma informadora soube que uma mulher já velha dos Estevais contava que andando dois irmãos a lavrar na camada do Ninho do Corvo, a velha do arado levantou um pequeno talhão de barro que estava cheio de peças de ouro que os tornou muito ricos. Essa mulherzinha era dos Estevais da Vilariça e os lavradores com quem o facto se passou, seus vizinhos.

Na ribeira em tempos que já lá vão, segundo contavam os antigos, uma grande pedra chata ou lastra, com um buraco no meio onde os lavradores metiam um calabrio (corda grossa do carro) para com ela poderem agradar as terras da ribeira.

A mulherzinha que me falou nesta pedra declarou-me que o pai e o sogro ainda haviam gradado com ela. Não havia outra grande na ribeira, quem precisasse de agradar ia buscar a pedra onde quer que ela estivesse e com ela faziam os seus serviços agrícolas.

Ora uma bela noite, um lavrador que muitas vezes se utilizara da pedra para cobrir as ruas sementeiras, sonhou e em sonho ouviu que alguém o intimidava a que fosse à pedra e lhe tirasse a cada ponta (canto), seu cibo, e depois a deitasse à ribeira para que a cheia a levasse. Vai o homem quebra-lhe um canto e depois de arrastar a pedra para a borda da ribeira da Vilariça, chapou-a na água. Foi grande o seu espanto ao verificar que a pedra em vez de desaparecer nas águas barrentas da ribeira, que a cheia fazia imergir, sobre ela nadava à superfície, e do buraco que a pedra tinha a meio saiu uma menina que seguiu sentada na pedra pela ribeira abaixo levada pelas águas e que disse ao ser arrastada pelas águas e como quem se despede para sempre de lugares queridos:

“Ribeira da Vilariça,

Fraga da pedra amarela,

Tanto ouro tanta prata,

Me fica dentro dela”.

A criatura que me forneceu esta curiosa nota terminou a palestra com o seguinte comentário:

- Ouvi dizer a meu pai muitas vezes que lá se a história da menina era verdade ou não, não sabia, mas o que sabia era que a pedra com que tantas vezes gradara, levara sumiço, sem que ninguém soubesse o que fora feito dela.

«Texto original da autoria de Susana Bailarim, em http://lelodemoncorvo.blogspot.com/2010/09/torre-de-moncorvo-penedo-do-cobrao.html»

Nota final: Cividade dos Banienenes,  um castro romanizado e um dos povos citadados na magnífica Ponte Romana de Alcântara…

Existem  estudos arqueológicos recentes  sobre o local, aguardamos que nos sejam facultados para os apresentar.

Acesso: Saindo de Torre de Moncorvo pela EN 325 anda-se durante 8 km até se apanhar a EN 102. Um km depois, num cruzamento a direita, toma-se a EM que vai para Adeganha.
Lat: 41.274000N Long: 7.051W
Protecção: Imóvel de Interesse Público, Dec. nº 26-A/92, DR 126 de 1 Junho 1992.

Bibliografia

BETTENCOURT FERREIRA, (1924), Vestígios do culto da serpente na Pré-História Lusitana, vol.
V, Porto, 1924.

CABRAL, A. (1910), Castrum Baniensium (impressões de viagem), in Ilustração Transmontana, nº3, 1910, pp.58-64;

SANCHES, Mª., (1992), Pré-História do Planalto Mirandês, G.E.A.P.- Monografias, Porto, 1992.

SANDE LEMOS, F. (1993), Povoamento romano de Trás-os-Montes Oriental (Tese de doutoramento), Universidade de Braga, 1993, (policopiado).

SANTOS JÚNIOR, J. (1931), As serpentes gravadas do castro do Baldoeiro (Moncorvo-Trás-os-Montes), in 15eme Congrés International d’Anthropologie et d’Archéologie Préhistorique, (Coimbra – Porto), 1930,, Paris, 1931, pp. 413-418.

SANTOS JÚNIOR, Joaquim R. (1963), Gravuras litotrípticas de Ridevides- Vilariça, in Trabalhos de Antropologia e Etnografia, vol. XIX, nº 2, Porto, 1963,

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Raul Losada

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