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Museu da Cidade (Lisboa)

Olisipo – A Cidade Romana

(séc. II a.C. – séc. V d.C.)

A região de Lisboa detinha uma importância à qual não seria alheia a sua excelente posição estratégica e a diversidade de recursos naturais disponíveis. O povoado indígena de Olisipo, originado durante os séculos VIII-VII a.C., encontrava-se instalado no morro e encosta do Castelo, fortemente conectado com o tráfico marítimo e o mundo oriental, sobretudo fenício.

A região seria integrada no mundo romano em 137 a.C., por Décimo Júnio Bruto, e o antigo povoado assumiu então novas características, tendo a área do castelo sido militarizada.

 No tempo do Imperador Augusto a cidade recebe o nome de Felicitas Iulia Olisipo (31 a.C.-27 a.C.), e torna-se capital de um município de cidadãos romanos, administrando um território vasto que se estendia à margem sul do rio Tejo, até à Arrábida.

O morro, que perdera entretanto as suas funções, é abandonado. Na encosta meridional a cidade adquire uma nova paisagem urbana, de traços monumentais. Aqui, a partir da época dos imperadores júlio-cláudios (27 a.C.-68 d.C.) se vão construindo edifícios públicos, de natureza administrativa, religiosa e civil, de que são exemplos o teatro e um conjunto balnear designado por Termas dos Cássios (ambos na zona da Sé), entre outros.

Na fachada ribeirinha desenvolve-se um subúrbio de grandes dimensões onde, para além das instalações portuárias, surgiram numerosas pequenas fábricas de transformação de pescado. Também aqui se ergueram grandes edifícios públicos, de que se salienta um circo sob o actual Rossio. Terá sido esta intensa actividade piscatória e comercial a colocar Lisboa a par dos grandes centros marítimos do Império Romano, sendo designada por alguns investigadores como a “capital marítima” da Lusitânia. 

Testemunhos exumados na sequência de diversas intervenções arqueológicas são apresentados na exposição permanente, onde se destaca uma relevante colecção de lápides epigrafadas, assim como um conjunto de elementos arquitectónicos provenientes de diversos edifícios de Olisipo. Os espólios cerâmico e vítreo mais representativos provém da Necrópole romana (séc. I – IV d.C.), encontrada na Praça da Figueira.

Acervo em exposição permanente

Placa funerária VIII  – Séc. I d.C.

Proveniência: Praça da Figueira

Dim.: 315 mm X350 mm X 30 mm

Nº Inventário: MC.ARQ.PF.62.EP.0001

Encontrada durante a intervenção arqueológica realizada na Praça da Figueira, por ocasião das obras do Metropolitano de Lisboa em 1962, esta placa funerária estava associada a uma urna de incineração em barro, bem próxima dos vestígios arquitectónicos do que aparentava ter sido um monumento funerário imponente. Constitui, portanto, um dos inúmeros vestígios de uma das principais necrópoles da cidade romana de Felicitas Iulia Olisipo.

Em latim tem gravado o texto:

CREVSA·AVI / TAE·SER(va)·ANN(orum) / XVI H(ic) S(ita) E(st)

ou seja:

“Aqui jaz Creúsa, escrava de Avita, de 16 anos.”

Eis, portanto um epitáfio algo invulgar por dizer respeito a uma jovem escrava, com nome de heroína grega. Certamente muito querida pela sua proprietária Avita, mereceu honras fúnebres e os seus restos mortais terão sido sepultados junto ao jazigo da família a que pertencera em vida. Uma memória foi gravada para que a sua passagem pelo mundo não fosse esquecida.

O texto funerário curto e simples (que se resume ao nome da defunta e à idade com que faleceu, associados à formula funerária “Aqui jaz”) permite situar cronologicamente a vida e morte de Creúsa no século I d.C.

Placa funerária V  – Séc. I d.C.

Proveniência: Praça da Figueira

Dim.: 445X330X25 mm

Nº Inventário: MC.ARQ.PF.62.EP.0003

Encontrada fragmentada e incompleta, durante a intervenção arqueológica realizada na Praça da Figueira em 1962, por ocasião das obras do Metropolitano de Lisboa, esta placa funerária de topo redondo foi exumada numa zona onde foram achadas urnas de incineração. Constitui, portanto, um dos inúmeros vestígios de uma das principais necrópoles da cidade romana de Felicitas Iulia Olisipo.

Em latim tem gravado o texto:

G(aius)· TERENTIVS/ G(aii)· F(ilius)· GAL(eria tribu)/ SATVRNINVS/ H(ic)· S(itus)· E(st)

ou seja

“Gaio Terêncio Saturnino, filho de Gaio, inscrito na tribo Galéria, aqui jaz”.

Trata-se de um epitáfio que segue os modelos textuais funerários da sua época. Para além do nome do defunto, salienta a sua condição de cidadão romano. Só os cidadãos romanos estavam inscritos numa das 35 tribos pelas quais se distribuía o corpo cívico romano.

A epigrafia funerária do município de Felicitas Iulia Olisipo prova que os seus cidadãos eram todos inscritos na tribo Galéria.

Esta preocupação em indicar a pertença a uma tribo corresponde a uma época em que a maioria da população do município não gozava do estatuto de cidadania romana. A referência à tribo acabará por deixar de se fazer a partir da década de 70 do século I d.C., quando o imperador Vespasiano e o seu filho Tito integram toda a população livre da Península Ibérica na comunidade cívica do Estado romano. A partir daí, estar inscrito numa tribo deixa de ser excepção e não merece destaque.

Capitel Lioz – Séc. II d.C.

Proveniência: Casa dos Bicos (Rua dos Bacalhoeiros)

Dim.: alt. total: 390mm; comp. total: 420mm

Nº Inventário: MC.ARQ/CB.82/2EA

Capitel de coluna de adossamento, incompleto. A decoração constituída sobretudo por folhas e meias-folhas acantizantes, na parte inferior e elementos foliáceos, na parte superior. O ábaco, apesar de partido, deixa antever a sua original modulação.

A intervenção arqueológica realizada na Casa dos Bicos em 1981/82, no âmbito da reabilitação daquele edifício, proporcionou o registo de importantes vestígios da cidade de Lisboa em época romana. Destacam-se os tanques de salga e conserva de peixe bem como um conjunto significativo de elementos arquitectónicos, profusamente decorados.

Ara votiva – Séc. II d.C.

Proveniência: Poço de Cortes

Dim.: 405 X 170 X 160 mm

Nº Inventário: MC.ARQ.PC.44.EP.0003

Monumento encontrado em 1944, durante as obras de abertura da Avenida Marechal Gomes da Costa, numa zona que não fazia parte da área urbana de Felicitas Iulia Olisipo, mas do seu território rural. Trata-se de uma ara, ou seja, de um altar. Este tipo de monumentos cumpria dois fins: o de receber um texto que se gravava no seu fuste e o de servir de mesa de apoio a vários tipos de rituais religiosos.

Neste caso, a ara, de dimensões modestas, trabalhada nas quatro faces, apresenta, na sua parte superior, uma figuração triangular à frente e atrás, toros laterais (pulvilli) e uma concavidade quadrangular (focus) escavada no topo. Seria nessa concavidade (actualmente incompleta) onde se derramariam líquidos e queimariam óleos e ervas aromáticas em honra da divindade.

O texto gravado no fuste, 

[P]ATRI LIBERO/ SACRVM·/ G(aius)· R(?) ·T(?)· AVO/ V(otum)· A(nimo)· L(ibens)· S(olvit),

recorda o cumprimento de uma promessa a Pater Liber, por um homem que se identifica com o seu nome abreviado, em vez do avô, ou pelo avô, ou então a favor de um homem chamado Avus, ou substituindo Avus na tarefa.

Liber Pater, a divindade em questão, é uma antiga divindade itálica relacionada com a abundância da Natureza e com a fertilidade. O culto a esta divindade decorria normalmente em ambientes rurais, ligado às preocupações agrícolas. É, portanto, significativo o facto de esta ara ter aparecido fora do perímetro urbano de Olisipo.

Um texto epigráfico é por natureza conciso, mas evidente: é feito para ser lido por muitas pessoas e durante muito tempo. As dificuldades de interpretação do presente texto, que existiriam também na época romana, não são habituais. Em primeiro lugar, o nome de quem consagra o monumento a Liber Pater é constituído por três palavras, como era norma no mundo romano, mas aparece em siglas. Se é fácil descobrir que nome próprio é Gaio (uma vez que só existiam 18), já nomes de família começados por R e cognomes por T são muitos. Assim, podemos supor que o dedicante preferiu permanecer incógnito.

Outra dificuldade está em perceber se Gaio cumpriu uma promessa a favor de alguém, ou em vez de alguém que a não pôde cumprir. E finalmente, também é difícil perceber se a palavra Avus se refere a um grau de parentesco (avô) ou a um cognome (Avus), dado que ambas as hipóteses são possíveis.

Contactos

Museu da Cidade

Campo Grande, 245

1700-091 Lisboa

Tel: +351 217 513 200

email: museudacidade@cm-lisboa.pt

Site: http://www.museudacidade.pt/Paginas/Default.aspx

Fontes e fotos: Museu da cidade / CM Lisboa

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