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Espigão das Ruivas – “Porto Touro”

Espigão das Ruivas – O Porto de abrigo


“A possibilidade de interpretar em sentido análogo o sítio cascalense de Espigão das Ruivas, uma instalação de pequena dimensão, sobre um promontório estreito nas imediações do Cabo da Roca, com vestígios de utilização em época pré-romana e romana (G. Cardoso(1), 1991).

Os trabalhos ali realizados revelaram a presença de uma invulgar estruturade escassa entidade, associada a abundantes vestígios de fogo. A dimensão da plataforma, mesmo atendendo à erosão a que teria sido sujeita, e a extensão do edificado não parecem permitir uma qualquer finalidade residencial do local, para além do mais, absolutamente agreste para uma fixação humana de carácter permanente. Como é óbvio, no Espigão das Ruivas não teria existido uma torre de sinalização com as características das conhecidas para a foz do Guadalquivir ou a Coruña ou mesmo para a presumida do estuário do Sado, apesar da sua proximidade relativamente ao Cabo da Roca que seria por certo um acidente geográfico merecedor de sinalização. Constitui porém, o núcleo cascalense, um indicador de que, para lá das grandes torres de sinalização, poderiam ter existido também vários pequenos pontos de sinalização que auxiliavam a navegação atlântica. A sua identificação e estudo poderão constituir aliciantes campos de investigação e a potencial confirmação da relevância desta actividade.”

A DIMENSÃO ATLÂNTICA DA LUSITÂNIA: PERIFERIA OU CHARNEIRA NO IMPÉRIO ROMANO?
CARLOS FABIÃO - Dept. História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
(1)      Guilherme Cardoso – Iniciou em 1972, a inventariação dos sítios arqueológicos do concelho de Cascais; foi responsável, desde 1975, por diversas escavações arqueológicas, sendo de destacar as escavações que dirigiu em colaboração com José d’Encarnação, na área da freguesia de Alcabideche: Espigão das Ruivas (Biscais), Miroiços (Malveira), Vilares (Murches), Alto do Cidreira (Carrascal de Alvide), Meroeiras (Abuxarda), Igreja de S. Vicente de Alcabideche, necrópole visigótica de Alcoitão, Zabrizes (Bicesse) e Casal Lobeira

Espigão de Ruivas – O Templo dedicado ao Sol e à Lua?


“Em Cascais no local do Guincho velho, admite-se a existência de um antiga estrutura de sinalética náutica. Trata-se do sítio arqueológico do Espigão das Ruivas (Idade do Ferro/período Romano), inicialmente interpretado como um lugar sagrado de culto ao sol e à lua, por ter registado vestígios de uma antiga estrutura pétrea, conservando uma gravura representando um touro.


Contudo, tendo em conta a proximidade a um lugar com o topónimo de “Porto Touro”, a reduzida dimensão da sua planta circular e os restos de carvões aí verificados, não será de excluir a hipótese de se tratar de um antigo farol de apoio à navegação de entrada no referido porto de abrigo (Ana Margarida Arruda, 1999/2000). O sítio registou a ocorrência de cerâmica diversa, nomeadamente sigillata, uma argola de bronze e um anel, além de uma sepultura violada de tipo “cista”.

Ricardo Soares (2008), Tartessos, um povo do mar. Génese da navegação, técnicas de construção e embarcações mediterrâneas pré-romanas.

O “Farol” de Espigão das Ruivas


Segundo alguns autores, identificou-se um possível “farol” (ARRUDAe VILAÇA 2006) no esporão do Espigão das Ruivas (CARDOSO 1993), pelo que a âncora em pedra de dois orifícios agora recolhida permite supor que Cascais, inserido no território olisiponense, oferecia as condições geográficas ideais para a sustentação de pequenos pontos de apoio à navegação, contribuindo para a afirmação dos contactos de índole comercial entre o Norte Atlântico e o Oriente Mediterrânico, onde o “hinterland” tinha uma posição de charneira.

O tipo de navegação praticado no litoral português no período em que se centra esta notícia não deveria ser diferente do praticado no Mediterrâneo, tal como viria a acontecer mais tarde, durante a Época Romana. Haveria, no entanto, algumas adaptações às técnicas náuticas utilizadas para fazer frente às particularidades de uma costa naturalmente muito recortada. Temos que ter em conta alguns aspectos fundamentais

nessa análise. Primeiro, as alterações à linha de costa, os avanços e os recuos. Um segundo aspecto, a existência de alguma instabilidade climática, tal como tem sido avançado em estudos recentes (SOARES 1997), e reafirmado por outros investigadores (ARRUDA e VILAÇA 2006),

o que afectaria as condições meteorológicas e oceanográficas que hoje conhecemos, traduzindo-se na diminuição do efeito upwelling costeiro (o que determina a não existência da nortada e das correntes). Por fim, um dos fenómenos com que os navegantes se depararam terá sido o das marés, cuja amplitude no Atlântico era impressionante perante a sua quase inexistência no Mediterrâneo. Um dos problemas levantados à navegação era o do acesso aos portos, dificultado em muitos casos durante a baixa-mar, pelo que a construção de infra-estruturas portuárias era de difícil concretização, recorrendo-se na maioria dos casos a portos naturais, tal como viria a suceder no período romano.

(Âncora de dois orifícios recuperada na Guia (Cascais).
C. M. Cascais. N.º Inv.º 2007.12.01.)

A navegação costeira e de altura seria assegurada por embarcações não muito distintas daquelas utilizadas no Mediterrâneo. Partindo das poucas informações transmitidas pelos autores clássicos como Pseudo Scilax, Heródoto e Estrabão, e pelo estudo iconográfico dos fragmentos cerâmicos exumados nas escavações da Rua dos Correeiros, em Lisboa, e do Almaraz, em Almada (ARRUDA e VILAÇA 2006), os Gauloi e as Hippoi deveriam ter sido as naves utilizadas com maior frequência na navegação costeira e em altura, e os barcos de pele e as canoas monóxilas na navegação costeira e fluvial.

In http://www.almadan.publ.pt/15ADENDAXV.pdf
(António Carvalho e Jorge Freire [Câmara Municipal de Cascais])

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