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A Cidade “perdida” de Collippo

Historia de Collipo

A cidade romana de Collippo é referida desde o século I pelos autores latinos como sendo um povoado túrdulo situado na faixa atlântica entre Conimbriga e Eburobrittium.

(Inedita: Vitoria Esfinge do Seculo I-II dc, encontrada em São Sebastião do Freixo – Collipo)

 
Os Túrdulos eram um povo ibérico que viviam na região de Cádiz e que, a certa altura, emigraram para o actual território português, tendo-se fixado na região de Leiria uns 300 ou 400 anos antes de Cristo.

Teriam escolhido o Outeiro de S. Sebastião para fixar um grande povoado, com certeza devido às suas excelentes condições geo-estratégicas. Este Outeiro, todavia, deveria ser já habitado, pois nas escavações efectuadas encontraram-se alguns fragmentos de cerâmica pré-histórica. Aquelas mesmas escavações permitiram recolher algumas cerâmicas pré-romanas, provavelmente dos túrdulos, que parece terem escolhido o ponto mais alto do morro de S. Sebastião, onde está hoje o depósito de água, para edificarem o seu povoado.

Infelizmente, hoje em dia poucas são as provas da presença destes povos pré-romanos no local, já que o cabeço de S. Sebastião foi totalmente destruído ao longo deste século pelos trabalhos de remoção de terras e extracção de areias que ali teve lugar.

(Mosaico com Hipocampo, provavelmente de collipo, adquirido por José Leite Vasconcelos num antiquário de Lisboa. Actualmente no Museu Nacional de Arqueologia.  Mosaico bicromo, de tesselas pretas e brancas, com representação figurativa de um Hipocampo andante. A cauda trilobada afasta-se pelas ondulações do corpo, contrastando com a postura afrontada da cabeça e do peito. O painel é enquadrado por uma moldura dupla de motivos geométricos, a interior mais estreita preenchida por uma linha negra de triângulos isósceles tangentes ou espinhas rectilíneas longas em fundo branco. A faixa exterior, mais larga, é composta por espinhas de peixe que alternam entre o branco e o preto e está bordejada por duas fitas axadrezadas. Foto MNA)

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O monte onde está hoje o depósito de água, que há umas décadas atrás era bem mais alto, teria sido o local onde se iniciou a história de Collippo, que, começando por ser um povoado pré-romano, rapidamente se transformará ao longo dos primeiros séculos da nossa Era na cidade mais importante da região leiriense.

“O povoamento Collippo”

O próprio termo “Collippo” resulta da junção da palavra latina “Coilis”, que significa colina, outeiro, com o radical túrdulo “-ippo” que significará povoado ou povoado fortificado. O termo Collippo, ele mesmo testemunha então a união entre os túrdulos e romanos significando povoado ou cidade da colina.

(Foto: Arquivo Igespar)

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No lugar onde se elevou a cidade de Collippo subsistia, nos primeiros tempos do povoamento leiriense, na Idade Média, o paço de um rico homem chamado Randufo ou Randulfo, como uma das testemunhas que subscreve o foral de Leiria de 1142 Randulfus Zoleimaiz.

Este foral refere o local como um núcleo de povoamento merecedor de expressa protecção jurídica, já que, para além de Leiria, aparece ali demarcado para efeitos de justiça Leirenam et Heirenam riuulos et usque ad Palatium Randulfi.

Passado alguns anos, em 1152, já este Palácio de Randiilfo será freguesia, devendo então, com certeza, existir uma igreja matriz. Esta será pois uma das mais antigas igrejas da área de Leiria e, nos inícios do século XIII, num documento de 1211, Sancti Sebastiani de palacio de randulfo é citado como uma das poucas ermidas que então se espalhavam pelo extenso termo leiriense.

As ruínas da antiga cidade que então deveriam marcar aquela paisagem, justificariam, certamente, o destaque que se atribuía ao local.

(Estruturas romanas – Foto: Arquivo Igespar)

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Aliás, a reutilização de sítios antigos pelas igrejas e primeiros núcleos de povoamento cristão nada tem de extraordinário, sendo isso mesmo preconizado por vários bispos desejosos de cristianizar sítios herdeiros de um longo passado cultural.

Os frades de Santa Cruz, que por esta altura possuiriam uma herdade próxima do local acabariam por estender o seu domínio às propriedades onde teve assento a cidade romana. Assim, num documento de 3 de Abril de 1544:

“Os frades crúzios emprazavam de novo aquelas terras a domjnguos Carreyra morador em ha quintã de som sabastiam que d amtyguamente se chamaua ho paço de Rendulfo mas com a condiçam que nam deixem nem comsytam leuar nhuua pedra grande nem pequena dos Edefiçios antiguos da dita qujnta pera outras hobras de fora deila.”

Estes Edefiçios antiguos só poderiam ser as ruínas da antiga Cllippo.

A proibição de se retirarem pedras da quinta para obras de fora dela, visa, certamente, acabar com uma prática até aí muito frequente e de tal forma significativa que merece uma atenção particular no documento. Tal prática de delapidação das estruturas romanas já seria corrente, pelo menos, desde meados do século XII, altura em que o local serviu de fonte de abastecimento de matéria-prima nas obras de construção do castelo de Leiria. O desmantelamento das ruínas do antigo burgo romano continuaria até ao nosso século.

Arqueologia em Collippo

 

Em 1909, Tavares Proença Júnior teria comprado uma inscrição funerária que, segundo diz nos seus manuscritos guardados no museu de Castelo Branco, teria aparecido ao retirarem pedra das ruínas das edificações do oppidum.

(Busto de Minerva – proveniência: S. Sebastião do Freixo)

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Estas sucessivas delapidações ao longo dos séculos servem para nos ajudar a entender a actual ausência de estruturas bem visíveis e claramente esclarecedoras de ali ter existido uma cidade antiga.

Pelos documentos conhecidos, quase todos monumentos funerários, é opinião mais seguida que a cidade de Colipo se situaria na actual Quinta de S. Sebastião do Freixo, a 7,5 kms. da actual cidade de Leiria, na maior elevação da zona, no actual lugar de Andreus, exactamente onde termina a freguesia da Barreira, concelho de Leiria, e começa a freguesia e concelho da Batalha. No topo da elevação, entre buracos de escavações abandonadas, ergue-se o marco geodésico, a 243 ms. de altitude.

D. Domingos de Pinho Brandão, em conferência referida no n.° 2838, de 1/6/72, de «O Mensageiro», a pág. 5, diz:

«Cremos bem que há dois mil anos ou pouco menos, a palavra Colipo servia para designar a vasta região, …  chama, ou pode chamar-se «Coliponense» esta terra, porque «no período da romanização assentava no alto, que hoje designamos S. Sebastião do Freixo, o antigo município de Colipo … porque dormem aí soterrados ricos vestígios que testemunham a importância e o esplendor desse município.

Disso nos fala uma bela escultura dum magistrado ou orador togado, tendo aos pés a caixa dos volumina, e mais 44 inscrições latinas».

«Estátua de togado,  proveniência: S. Sebastião do Freixo -  Collipo»

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(Estas inscrições foram doutamente estudadas e catalogadas por Sua Ex.a Rev.a o Sr. D. Domingos de Pinho Brandão, então Bispo de Filaca e Auxiliar de Leiria, na sua obra «Epigrafia Romana Coliponense», separata de Conimbriga, Vol. XI – 1972.)

Inscrições epigráficas de Collippo

Dessas 44 inscrições, sete falam de naturais de Colipo ou revelam pormenores dos quais se conclui a importância administrativa deste município.

EPITÁFIO DE CORINTO em Roma

Corinto era natural de Colipo e escravo de Hélvio Filipe.

O epitáfio foi descoberto em Roma e ignora-se o seu actual paradeiro.

A tradução portuguesa da inscrição latina diz:

«Vítor e Céler mandaram levantar, à sua custa, (este monumento) à memória de seu irmão Corinto, escravo de Hélvio Filipe, que era natural da Lusitânia, do município de Colipo, e morreu com 21 anos de idade».

(Conclusões: Colipo como município da Lusitânia; terra da naturalidade de três escravos, ou, pelo menos, do escravo falecido; a existência da escravatura em Colipo, situação corrente na época; a migração ou deslocações entre Colipo e Roma, e daí se poderá concluir pela inversa, motivadas quer pelas carreiras profissionais, quer por fins comerciais; a solidariedade e amor entre os irmãos escravos.)

MONUMENTO A ANTONINO PIO em Leiria

(Situada no interior das muralhas que circundam o castelo de Leiria, a Capela de Nossa Senhora da Pena foi edificada em substituição de uma primitiva igreja que havia no local.)

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Inscrição honorífica, talvez base de uma estátua, que se encontra na parede da Igreja de Nossa Senhora da Pena, em Leiria, e cuja tradução reza assim:

«Ao divino Antonino Augusto Pio, pai da Pátria, o melhor e o mais respeitável príncipe de todos os séculos, consagra esta memória, em nome do Senado de Colipo, Quinto Talócio Alio Siloniano, filho de Quinto, da tribo Quirina, cidadão coliponense, seu «evocatus» da 6.ª coorte pretoriana, em razão de o terem feito decurião com dispensa do honorário e das funções e encargos públicos. Dedicada por decreto dos decuriões, aos 13 dias das calendas de Outubro (19 de Setembro), sendo cônsules o Imperador César Lúcio Aurélio Vero Augusto pela terceira vez, e Marco Umídio Quadrado, sendo duúnviros de (Colipo) Quinto Alio Máximo e Gaio Sulpício Siloniano.»

(De interesse para a história de Colipo : A data da dedicação a Antonino, bem identificado na história. Este imperador, conhecido por «Pai do Povo» governou 23 anos (de 138 a 161), exactamente um dos períodos mais felizes da história de Roma, e faleceu a 7 de Março de 161. A sua exaltação é feita pelo Senado de Colipo em 167, precisando-se logo a seguir no «terceiro consulado do Imperador César Lúcio»;  A referência explícita a Colipo e ao seu Senado;  A indicação do nome dos duúnvios do município de Colipo nesse ano de 167.
A referência à carreira do munícipe coliponense Quinto Talócio Alio Siloniano.)

A organização administrativa e militar romana trazia novos nomes à região.

EPITÁFIO A MARCO GÚRCIO CASSIANO

Inscrição funerária, descoberta em S. Sebastião do Freixo durante os trabalhos de cava e preparação para vinha, que, na parte que nos interessa, diz:

«A Marco Gúrcio Cassiano, da tribo Quirina, que morreu com 32 anos e que tendo desempenhado todas as dignidades do município de Collippo … “.

De ressaltar a alusão ao município de Colipo e seus postos dignitários.

HOMENAGEM A LIBÉRIA GALA

Inscrição funerária, homenagem à sua antiga patrona, prestada por 5 libertos que lhe ficaram devendo a carta de alforria, cuja tradução diz:

«Lúcio Sulpício Claudino fez as despesas de funeral, deu lugar para a sepultura e levantou uma estátua, que lhe foi dada por decreto dos decuriões de Colipo, a Libéria Gala, filha de Lúcio, flamínica de Évora e da província da Lusitânia».

(Libéria Gala faleceu e foi sepultada em Colipo. Tratava-se da flamínia ou flamínica de Évora, da sacerdotisa que ajudava o flâmine ou era a mulher deste.

O flâmine era o sacerdote da antiga Roma encarregado de soprar o fogo sagrado. A missão dos flâmines e das flamínicas dizia respeito às divindades oficiais e ao chamado culto imperial, organizado a nível de cidade ou de província.
De realçar nesta inscrição a alusão a um decreto dos decuriões, do Senado, de Colipo.)

“A Região de Leiria na Época Romana”

Prof. Dr. João Pedro Bernardes

O historiador João Pedro Bernardes descartou qualquer possibilidade dos achados arqueológicos romanos no Cabeço de São Sebastião do Freixo ocultarem uma outra Conímbriga. Devido ao elevado nível de destruição, ao longo dos tempos, “não são vestígios monumentais”.

O investigador sublinhou o apoio da autarquia, na realização das primeiras escavações no local onde foram encontrados vestígios de Collippo, antiga cidade romana.

A pesquisa determinou o estudo em torno da presença romana na região de Leiria, há cerca de dois mil anos. O produto foi a tese de doutoramento, sintetizada no livro, editado no âmbito da colecção “Estremadura: Espaços e Memórias”, do Centro de Património da Estremadura.

“A nossa relação com o passado, é muito centrada nos objectos e muitas vezes esquecemo-nos das pessoas (…) a organização dos conteúdos do livro faz-se em dois patamares, por um lado o território, que é o mesmo que hoje ocupamos, por outro, as pessoas”, explicou João Pedro Bernardes.

Os vestígios em São Sebastião do Freixo, no concelho da Batalha, “não justificariam, eventualmente, uma musealização daquele espaço”. Ainda assim,” só um estudo profundo, permitiria avaliar o que ali existiria e qual o potencial de Collippo”.

António Lucas, presidente da câmara municipal da Batalha, revelou, durante a sessão pública de apresentação do livro, que há três anos propôs à câmara de Leiria estudar Collippo, situado na fronteira entre os dois municípios, mas a proposta não foi viabilizada.
As fronteiras iam desde Pombal até à zona de Alcobaça”. O historiador defendeu a criação de um Centro de Interpretação, através de uma união de esforços dos municípios de Porto de Mós, Batalha e Leiria.

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Para saber mais sobre Collipo visite o Museu da Comunidade Concelhia da Batalha: http://www.portugalromano.com/?p=827

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Fontes:
João Pedro Bernardes
In Revista Barreira, Noticias de Leiria, edição 206, de 06 de Junho de 2003
As estações romanas da freguesia das Cortes
http://jornaldascortes.no.sapo.pt/anteriores/agosto/memoria02.htm
“A Região de Leiria na Época Romana” (2008) da
Autor: Prof. Dr. João Pedro Bernardes
“ALERTA LEIRIA” , EDIÇÃO DO AGRUPAMENTO Nº 127 DO CORPO NACIONAL DE ESCUTAS – SÉ DE LEIRIA E É PERTENÇA DA BIBLIOTECA MUNICIPAL AFONSO LOPES VIEIRA.
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Bibliografia:
A Civitas de Collippo (1996)
A paisagem rural romana e alto-medieval em Portugal/Conimbriga (1998)
Batalha-Casal de S. Sebastião, Palheirinhos/Informação Arqueológica 9 (1994)
Civitas Colliponensis (2002)
Collippo: Uma cidade Pedida no Tempo/O Século Ilustrado nº 2028 (1977)
Collippo: Uma cidade Romana do Concelho da Batalha ,/Tempos e História (2000)
A Região de Leiria na Época Romana (2008)

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